O FISL passou por um período de retração, culminando na suspensão da edição de 2017. Foto: Divulgação.

Por Gustavo Melo*
O que você fazia, que tecnologias usava e como acessava a internet no ano de 1999/2000? O bug do milênio aterrorizava governos e organizações financeiras, o acesso era discado, a fita VHS e o ICQ reinavam absolutos em seu pico de usuários. Muitos dos leitores certamente desconhecem estes três últimos itens.  

Foi neste cenário que iniciou o FISL.  

Tive a oportunidade, entre 2006 a 2011, de integrar a organização do FISL – Fórum Internacional Software Livre. Certamente uma das experiências organizacionais das mais interessantes que já tive em minha carreira, onde a interação, troca de idéias, debates, integração e pontos de vista diversos, certamente, contribuíram para minha formação. 

Estando afastado formalmente da organização desde então, mas acompanhando o evento e o setor, acredito que possa perceber o evento e seu histórico, talvez, de maneira singular.

Um dos pontos que considero dos mais importantes foi, certamente, a interação com empresas relevantes do setor privado na época, como Sun Microsystems, Google, Uol, Terra, IBM, entre tantos outros players significativos no mercado global, e que compunham  parte do cenário nacional e internacional, não só para o Software Livre, mas para o setor de TI como um todo. A presença massiva de patrocinadores privados não tornou o evento irreconhecível, pelo contrário, o fez florescer e tornar-se ainda mais relevante.

O FISL cresceu, a ponto de se tornar relevante para economia de Porto Alegre, tanto que hoje o evento figura no calendário de eventos oficial da cidade e no calendário mensal de Atividades de Porto Alegre, já que nas diversas edições do evento ao longo dos anos, recebeu inúmeros visitantes e palestrantes de renome internacional, chegando a receber mais de 70 (setenta!) nacionalidades diferentes ao mesmo tempo, em uma cidade que certamente ainda guarda peculiaridades provincianas, para dizer o mínimo. 

Presença de palestrantes como John "Maddog" Hall, Diretor do Conselho do Linux Professional Institute; Theo De Raadt, fundador do OpenBSD; Rasmus Lerdorf, criador do PHP; Seth Schoen, Electronic Frontier Foundation; Keith Packard, X.org; Simon Phipps, Sun Microsystems; Louis Suarez-Potts, OpenOffice.org; projetos como OLPC (One Laptop Per Child) ou Amir Taaki, desenvolvedor e co-fundador do projeto Bitcoin (em 2012!) estiveram no FISL. Muito do que você vê, ouve ou lê na área de tecnologia, foi falado antes no FISL. 

Isso, só nos nomes que lembro de cabeça... ao longo dos anos, participando de entidades, associações, instituições de ensino e universidades, seja como aluno, docente, instrutor ou outra forma, a medida que seguia a vida, um ponto sempre me marcou: praticamente toda e qualquer tecnologia citada em trabalhos, palestras, cursos, seminários, aulas e treinamentos eu já tinha visto no FISL, pelo menos 5 ou 10 anos ANTES!. A ponto de muitas vezes frustrar colegas que apresentariam “um tema novo”, que para minha realidade, já era conhecido. 

Big data, data warehouse, data mining, criptomoedas, dentre outros, de forma alguma me eram estranhos e geravam até situações engraçadas, como de um colega que me “apresentou” que a universidade onde estávamos tinha “uma internet própria e muito mais rápida que a da sua casa”, com olhar e expressão de surpresa... sem saber que eu havia sido um dos negociadores da parceria entre o POP-RS, RNP, CPD-UFRGS e FISL para usar a rede da universidade no tráfego de dados e armazenamento de equipamentos do evento nas instalações da mesma universidade. 

Durante o período do FISL, eventos de tecnologia foram e vieram, poucos perduraram como a CEBIT e o próprio FISL, muitos pereceram, como Globaltech, Fenasoft e  BITS South America, para citar apenas alguns, que contavam  com patrocinadores e organizadores de peso considerável por trás. 

Entretanto, o cenário mudou. O FISL passou por um período de retração, culminando na suspensão da edição de 2017. A redução de patrocínios afetou o evento. Eu, particularmente, fiquei bastante triste quando soube do cancelamento da edição de 2017, conhecendo os organizadores e as entranhas do evento, certamente não foi uma notícia que recebi com qualquer gosto. Acreditei, e expus isso para outros antigos organizadores, que achava muito difícil, senão impossível, o retorno do evento. 

O improvável retorno em 2018 aconteceu. Certamente fruto da luta incansável dos organizadores que permaneceram na entidade ao longo de todos esses anos. 

“Há males que vêm para o bem”, diz o ditado popular. 

O evento de 2018 aparenta estar enxuto, focado e objetivo, com áreas como administração de sistemas, computação em nuvem, P2P, desenvolvimento, hardware aberto e ecossistema (incluindo aí economia e negócios do software livre). Noto melhora até mesmo nas pequenas coisas, como o vocabulário usado no site do evento e até no retorno do uso do domínio www.fisl.org.br nos materiais de comunicação.

O novo rumo que o evento parece tomar, pode não ter o mesmo sentido quantitativo no volume de integrantes e pessoas, mas certamente com uma guinada significativa no sentido qualitativo o evento pode voltar a florescer, sinal disto pode estar no retorno de participantes do setor privado como a Locaweb.

O FISL de 2018 é especial e certamente marca um recomeço. Talvez como a Fênix mitológica, o evento possa renascer mais forte, mais sólido e perene. 

* Gustavo Melo é graduado em marketing, MBA em gestão de vendas e relacionamento pela ESPM, mestrando na área de adoção de tecnologia no agronegócio, palestrante e professor.