Ex-bispo da Universal pode assumir ministério de Ciência e Tecnologia. Foto: PRB.

Tamanho da fonte: -A+A

Marcos Pereira, presidente nacional do PRB e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, é o primeiro nome a ser cotado para assumir o Ministério da Ciência e Tecnologia em um eventual governo do vice-presidente Michel Temer (PMDB).

Segundo informa a Folha de São Paulo, Pereira esteve reunido com Temer nesta segunda-feira, 02, no Palácio do Jaburu, para discutir a entrada do partido no governo.

O debate, é claro, passa por cargos. O PRB participava também do governo Dilma Rousseff, no qual outro pastor, George Hilton, chegou a ocupar o ministério dos Esportes.

O PRB tinha uma meta mais ambiciosa. Queria levar o ministério da Agricultura, o que não foi possível pela pressão de entidades ligadas ao agronegócio, um nome ligado ao segmento no comando da pasta.

Na semana passada, emissários de Temer ofereceram à sigla o comando do ministério da Previdência Social ou da Secretaria dos Portos da Presidência da República. 

O primeiro foi rechaçado por um possível impacto negativo de uma futura reforma previdenciária e o segundo por não ter status ministerial.

O provável novo ministro de Ciência e Tecnologia “fez carreira” dentro da Igreja Universal, na qual aos 20 anos já era pastor, chegando a bispo em 1999. Pereira trabalhou dentro da organização, na qual chegou a ocupar o segundo cargo na hierarquia administrativa.

De 2002 a 2010, esteve na TV Record, emissora ligada à Universal. Foi vice-presidente executivo e de relações institucionais. Nesse período, formou-se em Direito.

O Ministério de Ciência e Tecnologia tem um orçamento baixo para os padrões de Brasília e altamente contigenciado nos últimos anos. Assim, um futuro governo Temer está garantindo um apoio importante na Câmara em troca de relativamente pouco.

Nas palavras do próprio Pereira, o PRB "deixou o nanismo" nas eleições de 2014. O partido dobrou sua base em Brasília para 21 deputados, mais do que partidos tradicionais como PV, PDT, PPS e PCdoB.

O resultado foi alavancado em parte pela votação de Celso Russomanno em São Paulo, onde o ex-jornalista fez 1,5 milhão de votos, a maior votação do país. No Senado, a legenda tem um representante, Marcelo Crivella, que chegou a disputar o segundo turno nas eleições estaduais no Rio de Janeiro.

A escolha de um ministro sem conexão alguma com o universo de ciência e tecnologia deve desagradar ao meio acadêmico e de inovação no país, o que provavelmente não será suficiente para deter a nomeação de Pereira.

O último ministro de Ciência e Tecnologia, Celso Pansera (do mesmo PMDB de Temer) também não foi recebido de braços abertos pelo setor. 

Um deputado federal em primeiro mandado, Pansera só podia mencionar como experiência na área ter sido presidente da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), vinculada à secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

Quando começaram as discussões sobre a reforma ministerial do governo Dilma que levaria à entrada de Pansera no ministério de Ciência e Tecnologia, oito entidades representativas divulgaram uma nota pedindo continuidade nas ações na área.

O texto era assinado entre outros pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), a Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (ANPEI) e o Conselho Nacional de Secretários para Assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação (CONSECTI).

Além da inexperiência, talvez pese mais em contra de Pereira o espectro da interferência de cunho religioso na pesquisa científica, como no caso das células tronco.

O argumento pode ganhar força porque uma parte importante do setor acadêmico brasileiro está mobilizado na defesa do governo Dilma Rousseff - e talvez, no futuro, participe do que o PT planeja ser uma oposição feroz ao governo Temer.

Os 41 reitores dos institutos federais de educação profissional, científica e tecnológica divulgaram ainda em fevereiro de 2015 um manifesto “contra o golpe”. 

Desde então, reitores universitários e a UNE tem sido figuras carimbadas nos atos organizados por Dilma em sua defesa.