Manifestante em protesto contra o assédio sexual em São Paulo. Foto: Agência Brasil.

A Microsoft, em parceria com o Instituto Eldorado, desenvolveu o aplicativo Assédio Zero, por meio do qual mulheres podem geolocalizar ocorrências de assédio sexual, ajudando a compor um mapa do calor sobre o problema nas cidades brasileiras.

O app filtra entre agressões físicas ou verbais, armazenando os dados  na plataforma de nuvem da Microsoft. 

Também é possível receber mensagens e avisos sobre os ataques em tempo real, um tipo de informação que pode ser útil para ações de segurança pública.

O Assédio Zero já está disponível para Android e em breve estará nas lojas iOS e Windows Phone. 

O aplicativo é uma adaptação do Espaço Livre, outro app, este no caso focado em traçar um “mapa da homofobia” a partir de denúncias de agressões que ferem os direitos de ir e vir da comunidade LGBT. 

O Espaço Livre foi desenvolvido em um hackaton durante a Virada Digital, uma colaboração entre a Microsoft, o site Catraca Livre, o Instituto Eldorado e a empresa de serviços de TI Comparex, ocorrida na Virada Cultural 2016 de São Paulo.

A iniciativa da Microsoft parece visar aproveitar a visibilidade do tema assédio sexual, atualmente no centro da atenção da mídia no país, devido ao estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio Janeiro, do qual teriam participado 33 homens.

Ainda em investigação (com base em evidência postada por alguns dos acusados na Internet, a delegada encarregada já disse que acredita na hipótese de estupro coletivo) o crime levou a uma onda de comentários em redes sociais e protestos de rua organizados por grupos feministas em diversas cidades do país.

A Microsoft não chega a mencionar esse contexto social em seu comunicado. Talvez isso tenha que ver com o fato de que a agenda de parte dos participantes em protestos incluam também pedidos pela saída do presidente em exercício, Michel Temer. A presidente afastada Dilma Rousseff inclusive participou de alguns dos atos.

Na sua nota, a multinacional preferiu frisar seu histórico de defesa da diversidade no local de trabalho e do empoderamento feminino.

Em nível mundial, entre os funcionários da área de tecnologia, apenas 16,9% são mulheres na Microsoft, em linha com outros gigantes como Apple (22%) e Google (18%).

A Microsoft no Brasil assinou o documento Princípios de Empoderamento das Mulheres, uma iniciativa da ONU Mulheres, entidade das Nações Unidas que apoia e promove a igualdade entre os gêneros.

Atualmente 50% dos estagiários e 30% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres e, nas posições que se reportam diretamente para Paula Bellizia, presidente da Microsoft, o índice é de 60%.

Os dois aplicativos da Microsoft são parte de uma movimentação mais ampla da companhia - e das multinacionais de TI como um todo no Brasil - no sentido de trazer para cá um posicionamento militante em favor de minorias que é parte da agenda corporativa no setor de tecnologia nos Estados Unidos.

Na semana passada, por exemplo, a Microsoft apoiou pela primeira vez a participação de funcionários da empresa na Parada LGBT de São Paulo, manifestação de rua mais conhecida como Parada Gay. A Dell já fez a mesma coisa no ano passado em Porto Alegre.

As duas empresas e outras como SAP, IBM e HP já tem grupos de discussão internos de funcionários sobre como estabelecer ambientes de trabalho favoráveis para LGBTs.

O novo posicionamento das multinacionais de TI é  uma novidade no país onde o setor de TI concentram seus esforços de lobby em torno de uma agenda muito mais estritamente setorial, em torno de temas como impostos ou formação de mão de obra.