ASSÉDIO

Listas de demitidos viram lista de leads

03/08/2022 09:38

Empresas usam dados de profissionais desligados para tentar vender de tudo.

Advogados, cursos de Excel, golpistas... Demitidos recebem todo tipo de contatos. Foto: Pexels

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Empresas estão usando as listas de demitidos de startups de tecnologia, criadas para agilizar a recolocação dos profissionais no mercado, para tentar vender todo tipo de produto e serviço.

Como é ter o nome numa lista dessas? A reportagem do Baguete conversou com demitidos da Ebanx, fintech de processamento de pagamentos on-line, que autorizaram a divulgação dos seus dados de contatos e acabaram no Layoffs Brasil, um agregador de listas de demitidos em startups.

Bianca, uma das mulheres que colocou seu nome na lista, relatou que teve todo tipo de contato possível por meio dos seus dados.

Segundo ela, as ligações, que variavam entre três por dia, começaram já no primeiro dia após a demissão, quando advogados querendo "prestar solidariedade quanto à demissão e perguntar se já recebeu as informações de rescisão" começaram a entrar em contato com a profissional.

"Teve uma pessoa que me ligou, que me mandou mensagem no WhatsApp, e assim, o que que a gente quer nesse momento? É receber informação de recrutamento. Eu não quero saber se está tudo certo com a minha rescisão, entende?", diz a demitida.

Além de advogados, Bianca também conta que recebeu diversos e-mails de cursos das mais variadas áreas, como para Excel, propostas de serviços de assessoria para profissionais em busca de recolocação no mercado ou ainda para propostas de investimento para o valor da rescisão.

Alguns dos responsáveis pelos contatos disponibilizavam códigos de desconto, como “EBANX90” ou "LAYOFFSBRASIL", o que mostra que algumas empresas já desenvolvem ações de marketing focadas no público de demitidos de startups.

Ainda conforme Bianca, a situação inconveniente começou a ficar preocupante quando um golpista ligou se passando por um gerente de uma agência do Itaú, banco que cuidava da conta salário dos funcionários.

"Uma pessoa me ligou se passando pela gerente da agência do Itaú de uma cidade que morava antigamente falando que eu precisava atualizar meus dados, sendo que a minha conta é salário, por que atualizar dados, sabe? E aí assim eu comecei a ver que o negócio estava bem perigoso", declara Bianca.

O relato de Bianca sobre o assunto chegou a viralizar no Linkedin, levando a um debate sobre a prática de divulgar listas com nomes, telefones e perfis na rede social dos demitidos.

O que começou como uma movimentação bem intencionada das áreas de RH fazendo as demissões ganhou um outro nível de visibilidade com a criação do Layoffs Brasil, um agregador de cortes, no qual já estão disponíveis dados de milhares de profissionais.

Bianca espera que o Layoffs Brasil faça algum tipo de controle nas listas, com dados sendo divulgados apenas para recrutadores e não numa planilha aberta disponível para qualquer um que acessa o site.

Fica em aberto o quão viável seria uma mudança do tipo, tendo em vista que o Layoffs é um site relativamente simples, criado por uma pessoa só. Por outro lado, a página se financia com pagamentos de RHs por funções exclusivas como acesso antecipado e alertas para determinados perfis.

De momento, a decisão de se expor a contatos indesejados ou não é dos próprios profissionais, que podem pedir para ter seus nomes retirados da lista a qualquer momento (ainda que seja provável que um spammer simplesmente copie a lista na íntegra assim que puder). 

Outros profissionais ouvidos pelo Baguete opinam que a relação custo benefício de deixar o nome na lista vale a pena.

Mateus, outro dos demitidos do Ebanx, destaca o número de empresas que entraram em contato com ele, chamando-o para entrevistas e para fazer parte da equipe. No total, foram mais de 11, e em menos de um mês da demissão já estava começando um novo trabalho.

"Acho que se não fosse a lista eu não sei o que eu faria, sabe? Eu recebi muita ajuda, muitas entrevistas que me fizeram erguer a cabeça de novo e foi muito bom. Essa semana eu já vou começar no emprego novo, então acho que eu devo muito a lista também", diz o profissional.

Em relação a oferta de cursos e outros tipos de contato por meio das listas, o Matheus acredita que tais oportunidades podem não ter feito sentido para ele, mas que outras pessoas podem achar algo positivo.

"Então acho que privar as listas só para vagas de emprego e recrutadores não vale tanto a pena assim. No momento que está todo mundo sendo demitido, eu acho que cada ajuda, cada mão é interessante", explica Mateus.

Pedro, outro ex-funcionário da Ebanx com quem o Baguete conversou, destacou como ponto positivo o aumento de visualizações em seu perfil do LinkedIn, que aumentou mais de 10 vezes, indo de 150 visualizações por semana para cerca de 2 mil.

Além disso, o profissional conta que, logo que divulgou suas informações, empresas já começaram a buscá-lo, fazendo sua primeira entrevista de trabalho 20 minutos após ser demitido da EBANX.

"Olha pra falar a verdade foi bem assustador. Eu fiz a minha primeira entrevista acho que 20 minutos depois que eu tinha sido desligado oficialmente da empresa. Foi muito rápido. Nas duas primeiras semanas, eu cheguei a fazer quase 40 entrevistas de emprego no geral", diz Pedro.

Mas, apesar da rapidez com que conseguiu entrevistas, Pedro relata os mesmos problemas com os contatos de outras empresas querendo vender serviços, chegando a receber cerca de 20 e-mails diferentes sobre cursos de idioma, aulas particulares, cursos de Excel, entre outros.

Segundo relata o profissional, a maioria das empresas que entraram em contato não se preocuparam em fazer uma oferta realmente customizada, mais além do fato de focar no público alvo “demitidos da startup X”.

"Não achei bacana a abordagem. Alguns lugares chegavam tipo 'ah é de graça e tal' ou alguns às vezes não sabiam nem qual era a área de atuação da pessoa e acabou ficando um negócio muito genérico de 'estou te oferecendo 10% pra você fazer esse curso aqui de planilhas do Excel que vai te realocar no mercado depois disso'", relata o profissional.

COMO A LISTA FUNCIONA

Com o aumento de demissões em massa em startups, muitas empresas costumam divulgar listas com contatos e links para os perfis dos demitidos, informal ou formalmente.

O Layoffs Brasil recebe as listas de demitidos de "fontes seguras que autorizaram a divulgação", o que provavelmente significa o próprio RH das startups realizando os cortes, de maneira direta ou indireta.

De posse das informações, o Layoffs Brasil agrega elas a uma tabela, com data da demissão, número total, perfis profissionais e a tabela completa em um link.

Quem quer acrescentar seu nome pode entrar em contato com o site, assim como quem quer retirar suas informações.

O Layoffs Brasil oferece ainda um email semanal com atualizações. O site funciona com tecnologia do Google. 

*Os nomes nesta matéria foram alterados.