Abertura do SolidWorks World.

A SolidWorks começa em maio os testes em beta privado do XDesign, um software de CAD criado para rodar na nuvem. 

Anunciado durante o SolidWorks World, evento mundial da companhia encerrado em Dallas nesta quarta-feira, 03, o novo produto pode ser um marco na história da multinacional.

Fundada em 1995 e adquirida pela gigante Dassault Systemes dois anos depois, a SolidWorks foi pioneira em criar um sistema de CAD para Windows e é hoje uma líder de mercado.

O software, no entanto, foi pensado em um mundo sem uso massivo de Internet e computação em nuvem, o que dificulta o acesso em múltiplas plataformas e o organização do trabalho de maneira colaborativa em equipes dispersas.

Pode ter ajudado na decisão o fato que Jon Hirschtick, o fundador da SolidWorks, já colocou em beta público no ano passado o OnShape, um software de CAD na nuvem que já levantou US$ 64 milhões junto a fundos de investimento.

Além do XDesign, a SolidWorks anunciou também que o seu software tradicional poderá ter as suas licenças vendidas em modelo de aluguel, com custo mensal e que as versões de trial do produto poderão ser acessadas online via browser.

As movimentações, que na prática equivalem a adotar o modelo de negócios de software na nuvem mesmo mantendo a lógica de licenciamento, já foram adotadas por concorrentes como Siemens PLM e Autodesk.

A SolidWorks frisa que não pretende acabar com a possibilidade dos clientes adquirirem licenças perpétuas do seu software, ao contrário da Autodesk, que tomou essa decisão no ano passado.

“Nós não vamos fazer escolhas pelos nossos clientes. Vamos manter o desenvolvimento dos dois produtos em paralelo, assim como diferentes opções de compra”, afirma Suchit Jain, vice presidente de estratégia da SolidWorks.

O movimento da SolidWorks rumo à nuvem anunciado no SolidWorks World 2016 (que inclui ainda o XDrive, um serviço de storage cloud adaptado para as necessidades de arquivos de engenharia) não é uma decisão repentina.

Na verdade, o processo começou há quase 10 anos, quando a empresa ensaiou o lançamento de algumas funcionalidades colaborativas na nuvem operando em paralelo com seu software de CAD tradicional.

Mais ou menos nessa época, o então CEO da SolidWorks, Jeff Ray, deu uma entrevista desastrada prevendo que, eventualmente, o produto teria quer ser descontinuado e substituído por uma nova versão baseada no V6, o kernel do Catia, software de CAD para grandes empresas da Dassault (o kernel do SolidWorks é o Parasolid, licenciado da Siemens).

Desde então, os concorrentes, principalmente a Siemens PLM na sua linha SolidEdge, vem fazendo muito barulho e se posicionando como uma alternativa para a SolidWorks. 

A Dassault Systemes, por sua parte, procurou promover uma maior integração da SolidWorks dentro do seu ecossistema. Keynotes de altos executivos da Dassault Systems, incluindo o CEO, Bernard Charles, agora são regra no SolidWorks World. A companhia foi integrada mais profundamente dentro do organograma da Dassault Systemes.

Mais do que isso, a empresa começou a lançar a partir de 2014 um universo de softwares operando ao redor do tradicional SolidWorks, como o Mechanical Conceptual, focado na fase conceitual de design de produtos mecânicos, e o Industrial Conceptual, preparado para o projeto de produtos de consumo,

Ainda que  vendidos em um modelo tradicional e rodando localmente, esses softwares já incorporavam uma série de funcionalidades na nuvem para armazenagem e colaboração em projetos. Eles também são baseados no V6, o que tirou a força dos rumores sobre os planos de “matar” o SolidWorks.

Novos produtos, com cada vez mais ênfase em colaboração, são fundamentais para o futuro da SolidWorks. 

Duas décadas depois da invenção dos softwares de CAD, muitos analistas já opinam que esses produtos são commodities, nas quais é impossível introduzir inovações significativas, apenas melhorias incrementais cada vez menores.

Ao mesmo tempo, mesmo as máquinas mais simples tem cada vez mais eletrônica e software embarcados, criando o que se chama de mecatrônica. A criação de um novo produto envolve por tanto engenheiros de diversas disciplinas, trabalhando de maneira integrada, e, cada vez mais, dispersa.

Com 5 milhões de usuários em todo mundo e um faturamento de US$ 1 bilhão em vendas de novas licenças no ano passado, a SolidWorks quer aproveitar o seu status de líder em software de design para ocupar uma posição central nesse novo universo.

Gian Paolo Bassi, um profissional com histórico na área de pesquisa e desenvolvimento de CAD que assumiu há um ano a cadeira de CEO da SolidWorks, em um movimento que indica uma vontade da companhia de sair da zona de conforto, deu algumas pistas do que isso pode significar.

Durante o seu keynote de abertura no SolidWorks World, Bassi falou em um conceito de “plataforma de inovação”. Citando o exemplo de companhias como Uber e Airbnb (o que é mato em conferências de tecnologia, mas não tanto na área da SolidWorks), Bassi disse que a meta da SolidWorks é ser um “ponto de encontro entre profissionais e empregadores”.

É uma visão de futuro instigante para uma empresa como a SolidWorks. Agora é ver como ela será entregue, lançamento a lançamento.

Maurício Renner viajou a Dallas para o SolidWorks World a convite da SolidWorks.