Jim Whitehurst: "Foi bom enquanto durou".

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Jim Whitehurst deixou a presidência da IBM nesta sexta-feira, 02, em um movimento que pegou o mercado de surpresa.

Whitehurst havia assumido o cargo há apenas 14 meses, vindo da Red Hat, onde era o CEO quando a empresa foi comprada pela IBM por US$ 34 bilhões em 2018.

Whitehurst fazia parte de um arranjo de divisão de poderes instalado na IBM em janeiro de 2020, quando da saída da CEO e presidente Ginni Rometty, que liderou o negócio por 12 anos.

No arranjo, Whitehurst foi nomeado presidente enquanto Arvind Krishna, um profissional com mais de três décadas na gigante, ficou com o cargo de CEO.

As duas nomeações deveriam ser complementares: Krishna era o líder da área de pesquisa e desenvolvimento, responsável pelas novas linhas de cloud e inteligência artificial e deveria liderar o lado mais técnico.

Whitehurst entrou na Red Hat em 2007, vindo do cargo de chief operating officer da Delta Air Lines, onde foi responsável pela reestruturação da companhia aérea depois de uma falência. Ele deveria tocar o operacional da IBM.

Na época, a aposta era que a divisão dos cargos de CEO e presidente, inédita na história da IBM, não deveria durar: Krishna seria um CEO para o curto prazo e deveria ser eventualmente substituído por Whitehurst.

Não foi o que aconteceu. A decisão de sair foi de Whitehurst, que permanece como um conselheiro sênior para a alta direção. 

Em um post no blog da IBM, o CEO Krishna destacou o papel “pivotal” de Whitehurst na integração entre a Big Blue e a Red Hat. A tecnologia da empresa adquirida é uma peça fundamental da estratégia da IBM como articuladora de tecnologias de computação em nuvem.

O quanto é possível integrar os dois negócios parece ser um tema de debate até dentro da IBM. Em abril do ano passado, Paul Comier, um profissional com 20 anos de Red Hat que assumiu o comando da empresa com a ida de Whitehurst para a IBM, deu uma entrevista franca para o The Register.

“Nós não participamos da cultura da IBM. É assim de simples”, resumiu Comier, quando questionado sobre um eventual conflito entre o estilo da IBM, uma empresa centenária, com um forte negócio de hardware e uma cultura corporativa forte, com a Red Hat, uma empresa de software, organizada em torno de preceitos ágeis.

Comier seguiu afirmando que a empresa "não liga para hardware" e mantém seus departamentos de fiscal, legal, de tecnologia e recursos humanos.

A IBM fechou o ano passado com faturamento de US$ 73,6 bilhões, uma queda de 5%, e lucro de US$ 5,5 bilhão, uma queda de 42%, no mesmo ano em que outras empresas de tecnologia surfaram a onda do coronavírus e bombaram.

A título de comparação, o resultado é só um pouco acima das vendas da empresa em 1997 (isso em valores constantes: se fosse corrigida pela inflação americana no período, a receita da IBM teria que ser de US$ 120 bilhões).

Maus resultados tem sido uma constante na IBM nos últimos anos, na medida em que a gigante executa uma complicada virada do modelo de negócios na IBM, rumo aos chamados “imperativos estratégicos”: tecnologias quentes com margens altas como serviços cloud, inteligência artificial, segurança, blockchain e computação quântica.

Com as medidas em curso, a IBM chegou a ficar um total de 22 trimestres (cinco anos e meio) divulgando quedas nas vendas, uma série histórica que só foi interrompida em janeiro de 2018 (devido a um pico de vendas causado por um novo mainframe, ainda por cima). 

O mercado fez uma avaliação dura dos resultados dos últimos anos: as ações da IBM durante a gestão Rometty caíram 26%, ao mesmo tempo em que o índice S&P 500, que reúne as maiores empresas americanas, cresceu 160%.

As empresas na Nasdaq, bolsa de tecnologia, tiveram um crescimento no valor das ações de 257%.

A IBM parece estar em um inferno astral. Como se não bastassem os problemas da transição do modelo de negócios, a saída do seu presidente e a criação de uma spin off com nome de remédio, a gigante está enfrentando na última semana até problemas sérios no seu email.