Procergs, com o centro administrativo do estado ao fundo. Foto: site/Procergs.

Em meio a discussão sobre privatizações e concessões à iniciativa privada conduzida cada vez mais explicitamente pelo governo José Ivo Sartori (PMDB), uma estatal tem estado ausente do debate: a Procergs.

A estatal gaúcha de processamento de dados, com 1,181 funcionários e contratos com de órgãos de governo como Detran, IPE e Corsan parece relativamente “blindada” pelo seu papel estratégico e o fato de ter uma atuação menos visível para a população.

A reportagem do Baguete consultou uma dezena de fontes, entre ex-altos executivos da estatal e empresários de TI do estado, questionando sobre o que poderia ser feito de diferente na Procergs.

A privatização total é descartada por todos. O motivo é simples: o grande ativo da Procergs é a inexigibilidade de licitação para venda dos seus serviços para a administração pública, status que se perderia se a empresa fosse privada.

A fórmula mais radical apontada pelas fontes ouvidas pelo Baguete seria a venda de 49% da companhia para algum comprador privado, que com base nessa participação poderia capitalizar ativos como a rede da fibra ótica da empresa, com 5 mil quilômetros espalhados pelo estado, além de explorar os contratos com o governo.

Durante as privatizações do governo Antônio Britto (PMDB), no final dos anos 90, uma operação do tipo na Procergs chegou a entrar nos estágios iniciais. 

Na época, porém, a Procempa, estatal municipal de processamento de dados de Porto Alegre, cujo prefeito então era Raul Pont (PT), entrou no processo de venda, para logo depois contestar juidicialmente o processo, bloqueando a venda.

A maioria das fontes que conversaram com o Baguete, no entanto, não acredita que uma injeção de capital privado seja uma fórmula viável. A maioria aposta numa combinação de redução do quadro (incrementado nos últimos anos frente a uma média de 800 pessoas nos dois governos anteriores) e reposicionamento estratégico da empresa.

O atual número de colaboradores é apontado como além da necessidade, ainda mais tendo em conta que desde o governo Yeda Crusius (PSDB) a empresa tem feito licitações de fábricas de software no mercado – política que inclusive teve continuidade durante a administração Tarso Genro (PT).

O último contrato, assinado na gestão passada, foi vencido pela gaúcha DBServer e envolve 15 mil pontos de função e seis mil horas de consultoria, com ênfase em métodos ágeis e um custo total de R$ 9,9 milhões. Em 2009, haviam sido contratados 20 mil pontos, naquela ocasião da Stefanini.

Para parte das fontes, o ideal seria que a Procergs se posicionasse como um “escritório de projetos” (a Procergs tem no seu corpo profissionais reconhecidos na área) ou o “CIO do governo” (uma função hoje ligada a Casa Civil e sem maior influência política). 

Outros criticam um reposicionamento nessas linhas, destacando que gerência de projetos é uma concepção limitada da atuação da Procergs, que, pela qualidade do corpo técnico poderia ter um papel maior em incentivar o uso de TI em outras partes do governo e gerar economias de escala.

“Não é à toa que as transições do governo são feitas no centro de treinamento de Procergs. A equipe da estatal é quem tem a chave da continuidade da administração”, comenta um dos ex-executivos da companhia ouvidos pelo Baguete. 

O atual presidente da Procergs, Antonio Ramos Gomes, assumiu fazendo uma defesa fa permanência da empresa  como uma companhia estatal. Em conversa com o Baguete, Gomes reiterou o ponto de vista e disse que a visão tem respaldo no Palácio Piratini.

“A Procergs é estratégica para o governo. Todas as secretarias usam sistemas desenvolvidos aqui. Nós guardamos os dados da Receita”, exemplifica Gomes, destacando que recentemente a empresa recebeu o nível Ouro do PGQP pelo seu modelo de gestão.. 

O presidente da Procergs afirma que a estatal está trabalhando em projetos para eliminar o uso de papel na administração pública, além de reativar a Autoridade Certificadora do Rio Grande do Sul.

Essa é a quinta passagem de Gomes pela Procergs, empresa na qual o executivo atuou como consultor durante os governos Pedro Simon (PMDB) e Alceu Collares (PDT) e exerceu cargos de diretoria nos governos Antonio Britto (PMDB) e Yeda Crusius (PSDB).

Gomes diz que não acredita que sejam necessárias mudanças profundas na Procergs. Fontes de mercado ouvidas pelo Baguete apontam que a sua nomeação indica que o governo não quer alterações radicais.

No entanto, a crise financeira do Rio Grande do Sul, onde o deficit das contas públicas bate em R$ 400 milhões mensais parece estar numa escalada que não autoriza descartar alterações profundas em qualquer parte da administração pública, inclusive na Procergs.