Gustavo Canuto. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Gustavo Canuto, ex-ministro do Desenvolvimento Regional, foi nomeado como o novo presidente da Dataprev nesta quinta-feira, 06.

O novo presidente da estatal de tecnologia ligada à Previdência Social fez carreira no Ministério de Economia, no qual é funcionário de carreira. Ele também foi analista de sistemas na IBM entre 2004 e 2010.

Canuto substitui Christiane Almeida Edington, ex-CIO da Telefônica Brasil, que assumiu o comando da Dataprev em fevereiro de 2019, com a missão de preparar a estatal para a privatização.

Em nota, o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros, afirmou que Canuto foi selecionado por “ser um dos melhores quadros para equalizar tecnicamente os desafios enfrentados atualmente pelo INSS”.

Atualmente, 1,3 milhão de pedidos ao INSS estão sem análise há mais de 45 dias, prazo legal para uma resposta. No final de janeiro, o governo anunciou a contratação de 7 mil militares da reserva para ajudar nas agências.

A Dataprev, que teria um papel importante na solução do problema, está no momento em greve, devido aos planos anunciados pela diretoria anterior de fechar 20 filiais da empresa, demitindo 493 funcionários, cerca de 15% do quadro total.

Uma maneira de olhar a mudança, por tanto, seria como uma tentativa do governo de mudar as coisas dentro da Dataprev.

Outra, provavelmente mais apropriada, é ver a nomeação do novo presidente dentro do quadro político mais amplo em Brasília, no qual a  resolução de problemas práticos não costuma ser a preocupação priomordial.

Canuto foi demitido do posto de ministro do Desenvolvimento Regional para dar lugar a Rogério Marinho (PSDB-RN), que era secretário da Previdência e Trabalho, principal articulador do governo para a reforma da Previdência e para a mudança do eSocial.

Marinho vinha sendo defendido por vários setores do governo como articulador político entre o Planalto e o Congresso. 

O Ministério de Desenvolvimento Regional teve um orçamento de R$ 16,2 bilhões no ano passado e é responsável por investimentos em saneamento e habitação, o que representa uma série de oportunidades para colocar a articulação política em prática.

Canuto é técnico sem filiação partidária, mas, de acordo com alguns observadores, perdeu a confiança do presidente Jair Bolsonaro pela ligação direta com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). 

Não está claro o que o novo presidente deve significar para o processo de privatização da Dataprev. 

A empresa esteve parada nas últimas semanas, mas os funcionários suspenderam a greve nesta semana, depois que a Dataprev suspendeu as demissões.

Um eventual acordo entre funcionários e direção pode vir por uma diminuição no número de fechamentos e de demissões, ou por um aumento dos pacotes oferecidos na saída.

Muito possivelmente, no entanto, será uma decisão temporária.

Isso porque a Dataprev, assim como o Serpro, devem ser vendidas em junho de 2021 e os novos donos terão suas próprias ideias sobre o número correto de filiais, provavelmente no sentido de enxugar a quantidade.

A meta foi revelada pelo secretário especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, durante um evento para investidores realizado em São Paulo na semana passada.

Um desdobramento político recente em Brasília deu mais influência para a ala mais privatista do governo.

O Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) deixou a Casa Civil, onde estava sob a responsabilidade do ministro Onyx Lorenzoni, e será coordenado pelo Ministério da Economia, liderado por Paulo Guedes.

A decisão significa que as decisões sobre as vendas passam a estar sob supervisão direta de Guedes e Mattar, que vem insistindo na necessidade de privatizações desde o começo do governo.

Edington foi CIO da Telefônica Brasil por oito anos, até abril de 2016. No período, foi uma profissional de destaque, tendo sido escolhida CIO do ano para América Latina pela Oracle em 2011.

Desde a saída da Telefônica, Christiane passou pelo conselho de diferentes empresas, participando hoje em dia do board da Renner, Zup Inovation e Oesia. 

É uma profissional com algum gabarito que executou a tarefa para qual foi colocada na Dataprev, anunciando medidas que tornariam a empresa mais interessante para um eventual investidor.

Mesmo assim, caiu em um típico rearranjo de melancias em Brasília, uma situação que outros profissionais de mercado podem considerar antes de aceitar uma posição no governo.