O Uber lançou nesta semana uma campanha contra o assédio. Foto: Pexels.

O Uber lançou nesta semana, em parceria com a revista Cláudia, uma campanha contra o assédio. 

A empresa vai apresentar aos motoristas de todo o país uma cartilha com instruções como conceitos como machismo e feminismo e orientações sobre como se comportar respeitosamente com passageiras.

O documento está sendo distribuído em todos os mais de 30 centros de atendimento da Uber no Brasil. Uma versão digital do material e um vídeo também serão enviados a todos os motoristas homens cadastrados no app ao longo desta semana. 

"Essa cartilha traz recomendações que são bastante simples e diretas, na sua aparência, mas que carregam questões de gênero que gostaríamos de ver resolvidas", afirma Gui Telles, diretor-geral da Uber no Brasil. 

A cartilha é uma resposta do Uber às denúncias de assédio relatadas por algumas passageiras. Em novembro do ano passado, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria com alguns casos.

Um deles foi o de uma adolescente de 16 anos, que utilizou o serviço em São Paulo. 

Na ocasião, o motorista puxa assunto: "Vai sair?". A adolescente responde que não. "Mas é um desperdício ir para casa", ele insiste, segundo relato da jovem à Folha. "Não quer ir a uma balada comigo?". "Não." 

Após pelo menos 5 negativas, segundo a jovem, o motorista continuou: "Vou te levar para um lugar legal. Vai ser rápido. Não quer ir a um barzinho?". "Tenho 16 anos", disse a menina. "E daí?", respondeu ele.

No meio do trajeto, segundo ela, o motorista deslizou o dedo pelo celular e encerrou a corrida. A jovem disse que entrou em pânico, abriu a porta e pulou do carro. 

O Estado de Minas relatou um caso anterior, de julho do ano passado. “O motorista chegou a puxar meu pescoço para me beijar, enquanto eu repetia que aquilo não ia acontecer. Com muito custo, ele voltou a dirigir e me deixou em casa, mas, na porta, ainda insistiu no beijo”, declarou a passageira.

No entanto, em um momento em que críticas ao Uber crescem - não só em relação à segurança, mas também em questões como qualidade dos veículos e do serviço - a ação educativa pode parecer pouco para clientes insatisfeitos.

Globalmente, a empresa está envolvida em outras situações ligadas à assédio, que vão além de ações dos motoristas.

Em fevereiro, duas ex-funcionárias da empresa nos Estados Unidos fizeram denúncias contra o Uber.

Susan J. Fowler, ex-engenheira da companhia, publicou no dia 19 um desabafo sobre as sucessivas reclamações de abuso que fez ao departamento responsável e que foram ignoradas.

Na semana seguinte, o Uber recebeu mais uma denúncia, dessa vez anônima. Uma ex-funcionária descreveu numa carta como enfrentou questões semelhantes às que haviam sido reportadas alguns dias antes. 

Ela relata que um executivo da empresa teria feito insinuações de ela deveria “usar salto alto para que tivesse suas nádegas ficassem empinadas” e sugeriu que os dois saíssem para um jantar privado.

Quando reclamou ao departamento de recursos humanos, a funcionária diz ter inclusive recebido ameaças veladas por sua insistência em denunciar alguém que era visto como "altamente valioso" pelo o CEO da companhia.

As denúncias geraram problemas entre o Uber e seus investidores. Na quinta-feira, 23, Mitch e Freada Kapor, dois dos primeiros investidores da companhia, divulgaram uma carta para puxar a orelha da empresa publicamente, deixando implícito que a forma como a Uber escolher lidar com a situação pode gerar consequências para seus aportes.