Elizabeth Warren é a primeira candidata a falar abertamente em regular o setor de tecnologia. Foto: .flickr.com/photos/mdfriendofhillary

A senadora Elizabeth Warren, uma das pré-candidatas à presidência dos Estados Unidos pelo partido Democrata, anunciou planos para dividir em partes algumas das maiores empresas de tecnologia do país, incluindo Amazon, Google e Facebook.

Warren quer reguladores com autoridade para “desfazer fusões que sabotam a competição” e novas leis que proíbam plataformas de oferecem um marketplace para terceiros ao mesmo tempo que participam dele - o caso óbvio da Amazon.

Segundo revela o New York Times, as novas regras poderiam reverter a compra do WhatsApp e Instagram pelo Facebook, assim como a compra do Waze pelo Google, além da aquisição da varejista Whole Foods pela Amazon.

As grandes empresas de tecnologia também seriam barradas de transferir dados dos seus usuários com terceiros.

“Para restaurar o equilíbrio de poder na nossa democracia, promover a competição e assegurar que a próxima geração da tecnologia seja tão vibrante como a atual, é hora de dividir nossas maiores empresas”, resume Warren em uma nota oficial.

Na avaliação de Warren, as medidas antitruste contra a Microsoft nos anos 90 abriram o caminho para o crescimento de novos players como Google e Facebook.

O plano é criar regulação focada em dois tipos de empresas: aquelas com faturamento entre US$ 90 milhões e US$ 25 bilhões e aquelas com faturamento acima de US$ 25 bilhões (a Amazon entrou no clube no final de 2018).

Só as do segundo grupo estariam obrigadas a separar estruturalmente os seus produtos dos seus marketplaces. O governo poderia multar as empresas em 5% da sua receita em caso de violação.

Ainda é cedo para dizer o impacto que as propostas de Warren terão na campanha e em um eventual futuro governo. A senadora pelo Massachusetts é só uma de meia dúzia de concorrentes pela nomeação.

Por outro lado, a pressão por uma maior regulação do setor de tecnologia americano tem crescido a meses, na esteira de escândalos de privacidade de dados e do uso de redes sociais para influenciar a última eleição presidencial nos Estados Unidos.

Bernie Sanders e Amy Klobuchar, outros dois senadores que concorrem na primária democrata, também já se manifestaram como favoráveis a mais regulação, ainda que sem entrar em detalhes. 

Mesmo Kamala Harris, senadora pela Califórnia, estado no qual estão sediadas a maioria das grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos, falou sobre a necessidade de proteger a privacidade de usuários de redes sociais.

Não há um favorito claro para a nomeação no partido Democrata e a proposta de Warren pode ser influente no sentido de forçar os outros candidatos a tomarem uma posição sobre o assunto.

O assunto tem ainda outra dimensão, pelo fato do partido Democrata ser o destino da maioria das doações de campanha das grandes empresas do Vale do Silício. Eric Schmidt, CEO do Google, esteve entre os maiores doadores da campanha de Barack Obama.

Warren é um nome em alta no partido Democrata, tendo sido cotada como uma das prováveis vices de Hillary Clinton na última eleição. Ela é tida como uma política de esquerda e com um certo viés populista.

As grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos estão longe de seus anos de glória, após sucessivos escândalos de privacidade de dados e assédio sexual que derrubaram o discurso de “vamos construir um mundo melhor”.

Exista uma percepção crescente por parte da sociedade americana que seus donos formam uma espécie de nova oligarquia, cujo o enunciado público de boas intenções ressalta a hipocrisia da sua prática cotidiana.

O que Warren está propondo não é sem precedentes, tendo acontecido em duas ocasiões, em outras indústrias, mas num contexto similar de ultraje popular.

Em 1911, a Suprema Corte americana decidiu desmembramento em 34 partes da Standard Oil, então a maior refinaria de petróleo do mundo, comandada pela família Rockefeller, aristocracia da época.

Outro grande caso foi a divisão em sete empresas da AT&T, então a maior operadora de telecomunicações nos Estados Unidos, em 1984.