Torcedor assistiu uma humilhação histórica do Brasil. Foto: Paulo Pinto/ Fotos Públicas

Ao longo da Copa, o Baguete tem republicado crônicas do site de futebol sul americano Impedimento sobre a seleção brasileira. Este é da autoria de Douglas Ceconello.

Na época MEDIEVAL do futebol brasileiro, entre o Maracanazo de 1950 e o título de 1958, teve vigência o que Nelson Rodrigues nomeou de “complexo de vira-latas”, a síndrome da seleção, e também dos brasileiros, de se considerarem inferiores aos estrangeiros.

Pois bem. Cinco títulos e uma reviravolta brutal na PSIQUE nacional depois, nossa humildade extrema deu lugar à soberba e nos vemos inebriados por uma postura nada nobre que resultou, na tarde desta terça-feira, no maior fiasco da história do futebol brasileiro. Porque, depois de 2002, o Brasil passou a ser vitimado pelo complexo de cachorro grande.

Apenas a empáfia derivada de cinco Copas do Mundo poderia permitir que a atual seleção brasileira pretendesse enfrentar de igual para igual a Alemanha. Porque, sem Neymar, o Brasil sequer conseguiria vaga na Libertadores no campeonato brasileiro.

Mas que nada. O complexo de cachorro grande tomou conta até mesmo do historicamente MATREIRO Felipão, que mandou a campo uma equipe faceira, com Bernard substituindo Neymar, o que gerou um COLAPSO no meio de campo e deixou a defesa, já estropiada pela ausência de Thiago Silva, ainda mais vulnerável. Felipão deixou turvar a vista pela purpurina vigente no imaginário brasileiro.

Não tivesse cedido ao clamor ofensivo que ecoa como o ronco da cuíca nas faringes dos entusiastas deste espantalho que é o estilo brasileiro de jogar e de se comportar dentro do campo, porque onde já se viu respeitar qualquer adversário, sobretudo jogando dentro de casa, tendo entrado em campo com um time ciente de sua pequenez técnica, qualquer que fosse a escalação, é possível, até provável, que o Brasil fosse derrotado, mas com certeza não viveria a jornada mais vexatória de toda a sua história, somando Maracanazo, eliminações, eleição de Fernando Collor e derrotas diversas espalhadas em qualquer esfera esportiva, política e social. Mas não. Antes ser escalpelado do que abaixar a crista.

A prepotência brasileira já se manifestou das formas mais diversas nos últimos Mundiais. Em 2006, sob o signo da LUXÚRIA, amontoar jogadores técnicos e desleixados era a estratégia que Parreira julgava suficiente para vencer. E a única coisa que guardo na memória é Ronaldo, este mesmo que hoje adota tom crítico para falar da seleção, fumando e tomando refrigerante.

Em 2010, em condições muito semelhantes às de hoje, com um time precário e insuficiente em todos os setores, entrincheirar-se parecia a manobra bélica necessária para se alcançar a glória. Poderia ser, mas talvez tenha faltado reconhecer um ponto anterior e urgente: há dez anos que o Brasil possui seleções tecnicamente pobres, talvez miseráveis. Hoje o Brasil não tem condições de jogar como o Brasil ideal que povoa o imaginário nacional.

O obsceno, vexatório e constrangedor placar de 7 a 1 sofrido hoje deveria servir como ponto de MUTAÇÃO. Que se perceba que o Brasil não é gigante pela própria natureza dentro do campo simplesmente pelo PORTFÓLIO de títulos, que se entenda que não é vergonhoso admitir sua incapacidade técnica e encaixotar-se como um time pequeno quando isso se faz necessário.

Porque o atual complexo de cachorro grande tornou a seleção brasileira um arremedo do que ela já foi um dia, como um deprimente bon vivant falido que cambaleia de bar em bar em um terno roto narrando seus grandes feitos do passado, contando com a boa vontade alheia para manter o bico molhado.