Emerson Feliciano, R&D senior manager no CESVI Brasil. Foto: divulgação.

Um dia desses, um seguidor entrou no meu perfil do Instagram dizendo que havia lido alguns dos meus textos espalhados pela Internet, a respeito de desenvolvimento de carreira, e que discordava de um posicionamento meu: a perspectiva de que precisamos aumentar a participação do negro nas camadas mais altas do mundo corporativo.

Detalhe: além de mentor de carreira, eu sou um executivo, diretor de empresa... e sou negro.

Eu disse a esse seguidor que as estatísticas e o dia a dia nos provam que há muito a evoluir no que diz respeito à representatividade do negro em postos de comando no mercado de trabalho.

Com tranquilidade, perguntei quantos negros ele conhecia em cargos executivos, e se, por acaso, na empresa em que ele trabalha haveria algum.

Meu interlocutor, então, desconversou. E começou a criticar o fato de eu fazer minhas postagens nas redes sociais sempre ilustradas com imagens de pessoas negras. Ele disse que era estranho isso de ver tantos negros no papel de executivos.

E que eu não deveria fazer isso porque “não tem necessidade”. Um discurso que me faz lembrar os que questionam a “necessidade” de haver um Dia da Consciência Negra, já que não existe um “Dia da Consciência Branca”.

Expliquei ao meu seguidor que, enquanto ele e outras pessoas acharem “estranho” ver negros em fotos representando executivos, haverá necessidade de ações como a que eu tenho feito.

A luta é para que possamos usar as referências que nós quisermos e, quando essa representação for a de um negro no papel de diretor de empresa (ou de dono da empresa, ou de proprietário de um carro de alto padrão), isso pareça tão natural quanto hoje vermos pessoas de pele escura realizando trabalhos domésticos – ou, muito pior, sendo maioria nos presídios.

Se eu postasse a foto de um homem branco, alto, magro e de terno com a frase “realização profissional”, tenho certeza de que meu seguidor não estranharia a publicação. Provavelmente até se identificasse, absorvendo a mensagem sem rejeitar a imagem.

Mas como eu postei a foto de uma mulher negra num texto sobre como profissionais diferenciados devem se comunicar, e outra foto de um homem negro, de gravata, com um texto que fala de executivos que ganham dez vezes mais que a média, essas ações deram um curto-circuito no cérebro desse meu interlocutor. E isso tem explicação.

A neurociência já descobriu que o cérebro humano gosta de identificar padrões. Quando algo foge a esses padrões aos quais nossa mente está acostumada, sentimos algum desconforto psíquico.

Quando as novelas sempre mostram empregadas domésticas negras, é porque a direção da TV não quer conflito com os padrões que estão na cabeça dos seus espectadores. A novela é pensada para agradar, não para transformar a sociedade.

Diferente do que pensa o meu seguidor de Instagram – que pelo menos se deu ao trabalho de debater o assunto comigo –, há, sim, uma necessidade imensa de retratar negros como executivos em desenvolvimento ou em cargos de gestão. Porque quando houver uma constância maior nessa representação, nosso cérebro vai adotar novos padrões.

E então a empresa vai achar natural contratar um executivo negro, sem que a pessoa do RH tenha um sentimento automático de rejeição, uma vez que um profissional diferenciado negro não se encaixa nos padrões que o cérebro dela aceita. E mais: um estagiário negro vai se reconhecer naquela imagem, e associá-la ao diretor de empresa que ele um dia pode vir a ser.

Quando isso acontecer, o racismo estrutural que predomina no mundo corporativo talvez se torne um pouco menor – com uma representatividade menos desigual entre negros e brancos tomando as decisões mais importantes das empresas brasileiras. Essa é a minha causa.

*Por Emerson Feliciano, R&D senior manager no CESVI Brasil.