Rodrigo Parreira, CEO da Logicalis Latin America. Foto: Divulgação.

Por Rodrigo Parreira*
Eu tenho uma filha que acaba de completar doze anos. Uma criança interessante, curiosa e que começa a ser assolada pelas angústias da adolescência. Outro dia, alguém me perguntou o que eu gostaria que ela estudasse. Foi uma pergunta que, a princípio, me chocou, pois sempre imagino que ela deva estudar o que lhe interesse, o que lhe dê prazer e realização.

Encaro esse assunto de forma bastante individual, no qual ela terá que tomar suas decisões e minha contribuição será, na melhor das hipóteses, indireta. Mas a pergunta me fez refletir sobre o mundo em que vivemos. A verdade é que ele está se transformando de forma rápida, radical e, em alguns casos, violenta, e para mim, a tecnologia tem um papel fundamental nisso tudo. 

Impossível não vincular as instabilidades políticas e sociais que vemos hoje (não apenas no Brasil, mas em escala global) com a ascensão das redes sociais e a forma como a informação passou a ser consumida por todos nós.

Nos próximos anos, esse processo deverá ser acelerado, principalmente com a emergência de tecnologias como inteligência artificial, automação e robótica avançada. Neste momento, seus impactos sociais e econômicos ainda são difíceis de serem imaginados, mas se há algo que temos certeza é de que sabemos muito pouco sobre como será o amanhã.

Quando pensamos, nesse contexto, sobre as ocupações clássicas para as quais há vinte ou trinta anos nos dirigíamos, como Medicina, Direito, Engenharia e Magistério, me pergunto qual o sentido dessas carreiras a longo prazo. Ao pensarmos em uma jovem em formação, qual orientação poderíamos dar? Qual caminho faz sentido seguir em um momento de tanta transformação econômica, política e social?

Quanto mais eu reflito, mais me parece que muitas das ocupações atuais dentro de dez ou quinze anos (ou seja, o horizonte de formação de uma jovem de 12 anos hoje) podem sequer existir. Talvez nunca saibamos exatamente como prepará-los para isso, mas, em minha opinião, são necessárias duas coisas.

A primeira é uma boa formação. Em uma formação técnico-científica, por exemplo, uma pessoa “alfabetizada” em ciências naturais, físicas ou matemática tem a capacidade de interpretar a realidade à sua volta de forma ativa, entendendo os porquês das coisas e estabelecendo as relações causais que levam aos fatos. Ela aprende a ter uma visão analítica e apoderada sobre a natureza e as relações humanas.

A segunda é a atitude. Para o que está por vir é necessário possuir um espírito inquieto e insatisfeito. O exercício da dúvida e a busca constante por alternativas, não se contentando com o que é oferecido e mirando sempre o novo, é fundamental.

Acredito muito no poder dessa combinação. Aliás, pensando bem, esse é o perfil de pessoas que busco para trabalhar comigo. Uma sólida formação, uma atitude questionadora e curiosa, aliadas à vontade de contribuir com a sociedade, de criar o novo e de se renovar a cada dia.

Não sei se essa reflexão me fez entender melhor como orientar minha filha. É fato que temos muitas ambições e expectativas com relação a esses pequenos personagens, mas também é verdade que, ao final de todo esse processo, nossa maior contribuição é dar a eles os elementos para que possam construir seus próprios caminhos e serem felizes de sua própria maneira.

*Rodrigo Parreira é CEO da Logicalis Latin America.