FISL pode ter chegado ao fim. Foto: Divulgação.

A 19ª edição do Fórum de Software Livre, prevista para acontecer no começo de outubro em Porto Alegre, está cancelada e teve a realização transferida para julho de 2018, também na capital gaúcha. Mas a verdade é que nesse momento o futuro do FISL é uma incógnita.

Uma nota publicada no site da Associação Software Livre, organizadora do evento, reconhece não foram obtidos patrocínios suficientes e a campanha de doações individuais para viabilizar o FISL 2018 não foi bem sucedida.

A campanha de doações foi iniciada no final de junho, com o objetivo de reunir 3 mil participantes organizados em um grupo de Telegram (no momento, existem 387 inscritos).

Já no ano passado, o FISL esteve prestes a não acontecer, com a organização divulgando uma campanha de doações 30 dias antes do evento. No final, entre algumas doações e patrocínios, o evento conseguiu ser realizado, ainda que em um formato reduzido em relação a anos anteriores.

O FISL é acontece tradicionalmente em julho. O timing das comunicações da ASL indica que a associação tentou até o último momento buscar patrocinadores, decidiu atrasar o evento para outubro enquanto buscava patrocínio por crowdfunding e finalmente decidiu cancelar o evento em 2017.

Era uma luta ingrata. Já na edição do ano passado, o evento não teve patrocinadores Ouro, a cota mais cara. Em nível Prata, apenas CPD da Ufrgs e a Rede Nacional de Pesquisa.

Depois do anúncio da possibilidade de cancelamento, o evento conseguiu apoios extra da IBM, Ingram Micro, Banco do Brasil e alguns outros como patrocinadores Bronze.

O texto divulgado no site da ASL reconhece que o evento está numa encruzilhada, podendo sofrer uma remodelação total para os próximos anos.

“Muitos acham que o Fórum Internacional Software Livre deveria ter outros formatos, outros tamanhos, outras finalidades. Que ele deveria mudar e tornar-se mais parecido com este ou aquele evento, mais dinâmico, mais empreendedor, mais focado”, especula o texto.

A nota afirma ainda que durante o período de 01 a 04 de outubro será feito um “sério debate”,  com o propósito de “lançar as bases para a construção de novas estratégias”.

O problema do FISL é mais profundo que apenas uma fuga de patrocinadores causada pela crise econômica, tendo que ver mais com o declínio do PT em nível federal, e, por coincidência, também em nível estadual  e municipal no Rio Grande do Sul.

A história do Fisl está intimamente ligada a diferentes administrações petistas. 

A primeira edição, em 2000, aconteceu durante o governo de Olívio Dutra (PT) apresentando cases de quase uma década de adoção de software livre nas gestões petistas de de Porto Alegre nos anos 90.

Com a chegada do PT a Brasília, o evento começou a receber o apoio continuado de empresas públicas e ministérios e passou por uma era de expansão, chegando ao recorde de 8,2 mil inscritos em 2009 (no ano passado, foram cerca de 3,9 mil).

Ao mesmo tempo, profissionais ligados ao software livre em Porto Alegre, como Rogério Santanna e Marcos Mazoni, chegaram a altas posições em Brasília, como a presidência da Telebras e do Serpro.  

Eles, junto com dezenas de colaboradores das suas empresas, eram figuras carimbadas no evento, que em um ano chegou a ser visitado pelo então presidente Lula.

Marcelo Branco, presidente da ASL por um período, chegou a trabalhar com iniciativas de mídias sociais na primeira campanha de Dilma Rousseff para a presidência (não foi uma participação bem sucedida, mas ilustra o nível dos contatos da associação). 

Em nível estadual e municipal, essa associação não prejudicou o Fisl, com governos de diferentes matizes apoiando o que viam como um evento benéfico para Porto Alegre. 

No ano passado, foi aprovado um projeto de lei que inclui o evento no calendário oficial da cidade. O prefeito José Fortunati, um ex-petista hoje no PDT, recebeu uma homenagem do evento no ano passado.

A “tempestade perfeita” que atinge o FISL hoje  já vinha se desenhando desde 2015, quando, o FISL aconteceu já sob a sombra do impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

Com o novo governo Michel Temer colocando em prática uma estratégia de afastamento do apoio a software open source na administração pública, o financiamento federal desapareceu. 

O  governo estadual, comandado pelo PMDB, enfrenta uma crise financeira sem precedentes e também não é um apoiador de software open source. 

O cenário ficou completo com a vitória em Porto Alegre de Nelson Marchezan Jr, do PSDB, que tem entre suas propostas uma modificação profunda na política de tecnologia da cidade, um bastião histórico do software livre.

Os patrocinadores privados, por sua parte, na maior parte das vezes usavam o FISL como uma plataforma de captação de currículos dos jovens profissionais que formam a grande maioria dos frequentadores do evento (não foi por outro motivo que nomes ligados à ASL.org, incluindo Branco, trabalharam nas primeiras edições do Campus Party no Brasil).

Para se tornar mais atrativo para as empresas de tecnologia a ponto de poder ser bancado majoritariamente por dinheiro privado, o FISL provavelmente teria que ser remodelado até se tornar irreconhecível.

É uma queixa frequente de profissionais de TI presentes nas primeiras edições que com o passar dos anos o Fisl se tornou “ideológico demais”, à medida em que o movimento se integrava com a pauta da esquerda de maneira geral.

Em alguns eventos, isso significou uma tentativa complicada de equilibrar  pautas como direitos autorais, diversidade de gênero na indústria de TI, privacidade e política pública de software livre, e um lado mais pró-negócios e não necessariamente de esquerda, na qual a discussão técnica é o primordial.