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PROPINAS

SAP: mais problemas na África do Sul

Maurício Renner
// sexta, 14/09/2018 06:55

A SAP acaba de ser acusada de ter pago propinas em outro grande contrato público na África do Sul, desta vez no ministério de Água e Saneamento, agravando a crise de imagem da multinacional alemã, que já sofreu uma acusação parecida no ano passado.

Deu zebra na operação sul africana da SAP. Foto: Pixabay.

A propina de US$ 2 milhões teria sido paga num contrato com o ministério em 2016. 

Em julho do ano passado, surgiu a denúncia de uma propina de US$ 9,7 milhões em um contrato de tamanho similar com a estatal de ferrovias, o que foi admitido pela SAP.

Em nota, a SAP confirmou a existência do contrato e diz que ele está sendo analisado como parte de uma investigação interna sobre contratos públicos que vai até 2010.

A investigação faz parte de uma movimentação maior do novo governo sul africano em punir casos de corrupção registrados durante o governo de Jacob Zuma.

O ministério da Água parece ser um bom lugar para começar: no começo do ano, jornais do mundo inteiro noticiaram que a Cidade do Cabo, uma das maiores do país, estava prestes a ficar totalmente sem água.

Na primeira investigação, revelada no ano passado, a denúncia era que a SAP teria pago propina a uma empresa de impressoras 3D que tem entre seus sócios Duduzane Zuma, um dos filhos do presidente Jacob Zuma, e da família Gupta, influente em círculos políticos do país.

O valor equivaleria a 10% de um contrato fechado com a empresa de transportes estatal Transnet em 2010. A empresa vendeu o SAP Contract Lifecycle Management, no que foi o primeiro projeto com a tecnologia em solo africano.

A situação levou à suspensão de quatro gerentes sênior da operação sul africana. Dois executivos de dois executivos de confiança da matriz foram enviados para assumir os cargos de CEO e CFO e  uma empresa de auditoria foi contratada para investigar a situação.

O caso teve consequências mais sérias, afetando inclusive o Brasil, uma vez que parte da resposta da SAP foi eliminar as comissões pagas a parceiros por vendas para o setor público em todos os países com uma nota abaixo de 50 no Corruption Perceptions Index da ONG Transparência Internacional.

O Brasil tem nota 40 no ranking. Na América Latina, somente o Uruguai, com nota 71, e o Chile, com 66, ficam dentro do critério estabelecido pela SAP.

Com um novo escândalo colocando a empresa nos holofotes, o mais provável é que a política de zero comissões siga por mais tempo, prejudicando as possibilidades da SAP no mercado de empresas públicas, que é bastante incipiente.

Em 2013, o então presidente o então presidente da SAP para América Latina no Sul (região geográfica que cobre Brasil, Peru, Bolívia, Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina), Diego Dzodan, revelou a existência de uma meta de tirar a participação das vendas para o governo “das porcentagens de um dígito do faturamento para dois dígitos”. 

Não é possível saber o quanto isso representa, mas calculando a quantidade pequenas de cases que a SAP tem na administração pública e o quanto a empresa fatura na iniciativa privada, é uma aposta segura especular que naquele então o faturamento no setor governo estava em algum lugar abaixo de 5% e a meta era fazer ela passar dos 10%.

Uma meta tão específica (na medida em que falar de dígitos disso e daquilo pode ser considerado específico) não voltou a ser mencionada, mas muitas coisas aconteceram desde então nessa área no Brasil.

Em 2014, a companhia contratou Afonso Lamounier, ex-diretor de Alianças Público e Privadas da Microsoft, uma empresa com muito mais vendas na área pública, para assumir o cargo de vice-presidente para assuntos corporativos e relações governamentais para Brasil e América Latina.

No mesmo ano, a Bahia anunciou a implementação do software gestão de pessoas da SAP em 65 empresas e órgãos públicos do estado, com consultoria da Resource IT Solutions. O valor do contrato é de R$ 38,3 milhões com duração de cinco anos (essa implantação está em andamento).

Outro grande contrato fechado foi com a Caixa Econômica Federal, que decidiu consolidar 80 sistemas legados usando a aplicação da SAP para core banking em um contrato de R$ 518 milhões em três anos com a SAP.

O cenário daqui para frente parecia muito mais promissor para a SAP. O sucesso do case baiano abre a porta para vender processamento de folha para outros órgãos públicos. 

Apesar da necessidade de customizações para o cliente governo, esse é o tipo de solução que é considerado quase uma commoditie na área privada e que a SAP não deveria ter problemas em vender.

Além disso, os ventos mudaram em Brasília. Depois de anos de uma política de apoio ao desenvolvimento interno de software pelas administrações petistas, o governo Temer sinaliza disposição em comprar software proprietário em grande escala.

Maurício Renner