E-mail do Serpro agora é Powered By Zimbra. Foto: divulgação.

O Serpro decidiu abandonar o desenvolvimento do Expresso, uma suíte open source de comunicação na qual vem trabalhando há uma década, para lançar a partir de setembro o Serpro Mail, baseado na plataforma open source Zimbra.

Lançado no começo de agosto, o novo Serpro Mail deve começar a substituir no mês que vem o Expresso.

O novo Serpro Mail manterá o status do Expresso como “solução oficial de governo”, com a possibilidade de ser contratado sem licitação.

Um dos motivos para a mudança pode ser a queda livre do Expresso, que chegou a ter 500 mil contas, mas, na última divulgação oficial, no início de 2016, tinha só 56 mil contas ativas no governo federal. 

No seu modelo comercial normal, o Zimbra tem uma versão open source gratuita e outra paga, com suporte e tecnologia de mensagens instantâneas, conectores com Outlook e sincronização de contatos.

O Serpro não deu maiores detalhes sobre como será feita a divisão das receitas com a multinacional, descrevendo apenas uma parceria em termos genéricos.

"Estamos quebrando um paradigma referente à esfera de governo. Assumimos um modelo de parceria com o fornecedor: quando a gente ganha, o parceiro também ganha", afirmou durante o lançamento do Serpro Mail André de Cesero, diretor de Relacionamento com clientes do Serpro.

Do lado da Zimbra também não falta entusiasmo, com o Charles Simão, gestor da Zimbra no Brasil, destacando que o SerproMail tem potencial de representar “a maior solução de e-mail em nuvem open source do mundo”. 

"Em certa escala, a Zimbra passa a ganhar apoio, suporte e time de vendas do Serpro, e vice-versa. Milhares de clientes poderão ser atendidos”, comenta Simão.

O entusiasmo tem lá seus motivos. A Zimbra não é nenhuma gigante. O primeiro software da empresa foi lançada em 2005 (contemporâneo do Expresso, por tanto). 

A passou um pouco de mão em mão, sendo adquirida pelo Yahoo em 2007, pela VMware em 2010, pela Telligent Systems em 2013 e finalmente pela Synacor, uma empresa especializada em serviços para provedores de Internet e comunicações, por apenas US$ 24,5 milhões em 2015.

Além disso, o novo Serpro Mail oferece uma gama de recursos maiores que seu antecessor, nos quais as caixas postais começavam em 500 MB, para ficar só numa comparação.

Ele também é mais caro, mas ainda assim competitivo frente a concorrentes como o GSuite da Google, cujo preço no varejo é de US$ 65 por ano.

A caixa básica, com 1 GB de armazenamento e funcionalidades reduzidas, custará R$ 6 por mês.

Um produto intermediário, com 2GB de espaço e funções extra como calendário, assinatura digital e compartilhamento de arquivos, sai por R$ 9.

O produto avançado tem 5 GB e as funções do intermediário acrescidas de busca em anexos e conector para Outlook por R$ 15.

Estão no cardápio serviços adicionais cobrados por mês como suporte do Serpro (R$ 4,62 por caixa), backup por períodos superiores aos últimos seis meses (R$ 3,97 por GB), espaço extra (R$ 2,39 por GB) e uma ferramenta de comunicação com vídeo (R$ 6,25 por caixa).

Apesar do Zimbra ser uma solução open source, a migração em curso no Serpro é uma derrota para a estratégia de software livre dentro do governo federal como vinha sendo pensada até hoje.

O Expresso, um software baseado na plataforma alemã E-Groupware criado em 2005 pela Celepar, estatal paranaense de processamento de dados, durante a gestão de Vinícius Mazoni.

Mazoni levou o projeto Expresso com ele quando foi promovido a presidente do Serpro ainda durante o segundo governo de Lula, permanecendo na administração da estatal também na administração Dilma Rousseff.

Depois do escândalo de espionagem da NSA revelado por Edward Snowden em 2013, no qual transpareceu que as comunicações de Dilma eram monitoradas, o Expresso ganhou um impulso extra. A tese era que um software de comunicações desenvolvido pelo governo seria mais seguro que equivalentes como o Office 365 ou GSuite. 

O Expresso chegou a ser especulado como a base de um correio eletrônico nacional liderado pelos Correios, um projeto concebido por Dilma no calor do momento que acabou dando em nada.

Durante a gestão Mazoni, o Serpro foi acusado com frequência por entidades de TI de se aproveitar do seu status de fornecedor preferencial do governo  para inchar os quadros, em meio a uma aposta excessiva em desenvolvimento próprio de soluções que empresas privadas poderiam entregar.

As criações do Serpro incluem, por exemplo, o Demoiselle, uma API Java para desenvolvimento de aplicações web de grande porte; o Sagui, um gerenciador de instalação de aplicações e o Liane TTS é um sintetizador de voz que lê telas para portadores de deficiência visual.

Se a ideia é diminuir o desenvolvimento interno (ainda que não necessariamente o acesso privilegiado ao governo), o Expresso parece um bom lugar para começar.

Com a chegada de Michel Temer ao poder, a atitude do governo começou a mudar em relação à aquisição de software proprietário, e algumas grandes licitações começaram a ser feitas para aquisição de Office 365 (inclusive dentro do Ministério do Planejamento, de onde se origina a política de TI que o Serpro aplica).

Além de tudo, diferente de uma solução para técnicos como o Demoiselle, o Expresso atende usuários finais, que estão acostumados a uma experiência bastante superior como pessoa física (é disseminado no governo o uso de caixas postais “2”, o que oferece outra série de riscos de segurança).