Sócios colorados votando no Gigantinho. Foto: divulgação/Internacional.

Tamanho da fonte: -A+A

Onze mil sócios colorados participaram neste sábado, 15, das eleições para a renovação de 50% dos integrantes do Conselho Deliberativo do Internacional.

A maioria deles recebeu nas semanas anteriores um volume de informação online das seis chapas envolvidas dignas de uma eleição municipal.

Nas redes sociais, sócios manifestaram desagrado com a insistência dos movimentos, principalmente em um canal invasivo como o celular.

Só o responsável por esta matéria foi alvo de nove SMS e mais de uma dezena de e-mails em um período de uma semana. Algumas pessoas relataram ter recebido ligações telefônicas.

De acordo com Norberto Guimarães, diretor do Centro de Atendimento ao Sócio do Internacional, a avalanche de contatos foi possível porque a direção do clube tem a obrigação pelo regimento interno de liberar para as chapas os dados de contato de todos os 60 mil associados aptos a votar.

“É só e-mail, telefone e endereço, nada mais. As chapas se comprometem a usar só para fins de campanha. Qualquer outro uso é coibido”, afirma Guimarães, que atua como consultor e dono de uma distribuidora de bebidas, trabalhando voluntariamente no Inter.

O diretor do CAS revela que só na última eleição municipal o Inter acionou judicialmente mais de uma dezena de empresas por disparos irregulares visando os sócios do Inter. Nas eleições municipais, 42 candidatos que entraram mensagens não autorizadas foram processados.

Tendo em conta que no mundo da bola é comum conselheiros transitarem entre o clube e o mundo da política em todo o espectro partidário -  Ibsen Pinheiro (PMDB), Manuela D'Ávila (PCdoB), Beto Albuquerque (PSB), Mano Changes (PP) e Vieira da Cunha (PDT), para citar só alguns políticos colorados mais conhecidos - pode-se esperar mais situações do tipo.

Guimarães afirma que “não é difícil” descobrir quem foi o responsável por vazar os dados para uso não autorizado e que os conselheiros que o fizeram podem enfrentar o Conselho de Ética e processo judicial por descumprimento do acordo de confidencialidade. Não há notícia de que algo assim já tenha acontecido, no entanto.

Qualquer pessoa com conhecimento mínimo de gerenciamento de dados sabe que uma vez que uma planilha com 60 mil nomes é aberta – e ainda mais se isso é feito a cada dois anos durante o processo eleitoral do clube – no médio prazo a informação estará disseminada e fora de controle dos seus proprietários.

Questionado sobre o assunto, o diretor do CAS tenta minimizar o problema, afirmando que o centro recebeu apenas cerca de uma centena de reclamações da base de usuários – bem menos de 1% do total – e que 70% dos associados tem mais de 40 anos de idade constituindo um público menos online e irritável em relação a temas como spam.

Entre as gerações mais novas, porém, as críticas são fortes. Questionados sobre o tema através do perfil do Twitter @baguete, leitores falaram em “uso extremamente excessivo”, “desrespeito”, “abuso” e preocupação com a segurança das suas informações.

“A chapa que mais mandou SMS foi a vencedora, então se preparem para a próxima eleição”, resume o usuário @matheusantos_ citando a chapa 2 do ex-presidente Vitório Piffero, que fez 4 mil votos e foi responsável pela metade dos torpedos recebidos pelo autor dessa matéria.

O Internacional já oferece a possibilidade de optar por não receber nenhum comunicado no momento do cadastro ou por meio de opt out no e-mail, dentro do que é recomendado no mercado de e-mail marketing, mas o próprio Guimarães reconhece a necessidade de melhorias.

Os envios de SMS, no entanto, não contam com uma opção de desabilitação. Fontes do Baguete no mercado de empresas que atuam com envio de mensagens de texto apontaram que a prática de mandar conteúdo ligado a eleições viola direitos do consumidor e que alguns players da área não fazem esse tipo de envio.

Um cenário ideal seria as chapas enviando seus comunicados por meio de uma ferramenta – o Inter usa o iSend, da gaúcha Intelly – que é a prática de mercado usada com parceiros como Coca Cola e Eletrolux. O empecilho para tanto é político.

“Uma chapa de oposição poderia acreditar que a situação não está disparando toda a base”, afirma Guimarães.

O clube no entanto reconhece que existe um problema e o responsável pelo CAS afirma que o Conselho Eleitoral, com integrantes de todas as chapas, deve se reunir para definir limitações aceitas por todos na quantidade de contatos.

Outra opção não mencionada por Guimarães é contratar uma auditoria para monitorar o envio de informação, assegurando às chapas opositoras que seus esforços para derrubar a situação não estão sendo minados pela própria situação.

Já existe monitoramento externo em outras partes do processo eleitoral colorado: senha de acesso a base de dados foi transferida pela Procergs na sexta-feira, 14, para a Sec2b, uma empresa de Porto Alegre especializada em segurança da informação.

O mandato do presidente Giovani Luigi vai até o final de 2014. As duas chapas de oposição conquistaram 112 das 150 cadeiras disponíveis no conselho e prometem fazer  uma campanha acirrada para assumir o poder do Inter em uma eleição com candidatos presidenciais e não chapas fechadas de conselheiros concorrendo.

Segundo dados da consultoria BDO, o colorado é o terceiro clube de futebol mais rico do país, com R$ 198 milhões de faturamento em 2011 e um projeto de reforma do Beira Rio orçado em R$ 330 milhões.

Vai ser fácil descobrir então se a instituição terá até lá uma prática de gestão de informações condizente com os valores que maneja: os sócios só vão ter que conferir a lista de novos SMS no celular.