O velho normal está pronto para voltar? Foto: Pexels.

A adoção de home office se provou vantajoso para as empresas, que mantiverem ou aumentaram a produtividade, ao mesmo tempo em que abriram a possibilidade de cortar custos.

Essa é uma das verdades consagradas do “novo normal”, como ficou conhecido o estado de coisas gerado pela pandemia do coronavírus. Mas será que é mesmo isso?

O JP Morgan, o maior banco dos Estados Unidos, mostrou uma realidade diferente em uma conferência com analistas: a produtividade caiu em todos os departamentos, com quedas acima da média nas segundas e sextas feiras.

A reunião era privada e por isso talvez CEO do banco, Jamie Dimon, tenha sido mais sincero do que outros colegas falando em público, ou para jornalistas.

Segundo revela a Bloomberg, a conclusão no JP é que trabalhar em casa não é um substituto para a boa e velha "interação orgânica" e que por isso mais funcionários devem voltar para os escritórios a partir da próxima segunda-feira, 21.

A ideia é colocar os escritórios em Nova Iorque a 50% da capacidade.

Há outros sinais na praça de que toda a falação em torno de home office pode ser apenas isso, falação.

Um deles é que o número de pessoas ocupadas trabalhando de casa está caindo desde a segunda semana de julho.

Foi quando o IBGE registrou uma queda de 7,8% na comparação com a primeira semana do mês.

O número passou de 8,9 milhões para 8,2 milhões, com um total de 700 mil pessoas voltando para os seus escritórios. 

Foi a primeira queda registrada no número desde maio, quando a pandemia chegou com força no Brasil e o IBGE começou a coletar números.

No final de julho, a KPMG divulgou uma pesquisa com 700 empresários apontando que 21% pretendiam retornar ao trabalho nos escritórios (o que poderia ser chamado de “velho normal”) ainda em agosto.

A maior parte (35%) projetava a volta entre setembro e dezembro deste ano. Só 9,4% falavam de voltar em 2021.

Os dados chamam atenção, principalmente no setor de TI, no qual mais de uma dezena de empresas divulgaram decisões no sentido de prolongar o seu home office até o final de 2020.

A lista inclui desde grandes empresas, como a CI&T, empresa de desenvolvimento de software com 2,3 mil funcionários; médias, como a Zenvia, companhia gaúcha de plataforma de comunicação e serviços móveis com 270 funcionários, além de uma grande quantidade de startups.

Nesta semana, a AMcom, empresa de desenvolvimento de software sediada em Blumenau, avisou que vai manter 300 funcionários em home office até que esteja disponível uma vacina para o Covid-19.

Algumas empresas inclusive estão aproveitando a deixa para fazer migrações permanentes para o home office.

Em termos percentuais, a mais ambiciosa entre elas é a BRQ, uma das maiores empresas de serviços de TI do país, vai transformar o home office na regra para os seus mais de 2,5 mil funcionários. 

Já a Stefanini divulgou um plano percentualmente menor, mas que envolve mais funcionários: a meta que metade do time trabalhe em home office num prazo de 12 a 18 meses, sendo 60% dessa equipe de maneira permanente e outros 40% de maneira parcial.

É uma mudança enorme para uma empresa que tem 25 mil funcionários (14 mil no Brasil) e tinha antes da crise uma prática mínima de home office, limitada a 120 profissionais na Europa.

Mas a verdade é que os anúncios das empresas não devem ser usados para aferir uma tendência mais ampla no segmento de tecnologia como um todo.

Isso porque as empresas que estão tomando essas medidas fazem questão de enviar notas divulgando a ação, que mostra adesão às novas tendências e capacidade de adaptação ao “novo normal”.

(Os anúncios nem sempre significam uma decisão altamente embasada: em um caso, uma companhia de médio porte divulgou que estava migrando para o home office, para depois dizer que já não estava mais).

Por outro lado, quem está louco para voltar ao “velho normal” simplesmente volta, sem fazer nenhum anúncio para a imprensa. Vazamentos de conversas sinceras como o que aconteceu com a JP são relativamente raros.

Uma exceção foi o São Paulo Corporate Towers, um dos endereços corporativos mais badalados da capital paulista, sede das operações brasileiras da IBM e Microsoft, que divulgou seus planos de volta às operações.

Entre as medidas, os altos executivos que frequentam o prédio vão ter que estacionar os seus carros, evitando a entrada nos automóveis de um manobrista.

Mas a divulgação partiu do próprio São Paulo Corporate Towers, cujo interesse é mostrar que escritórios de alto padrão são tão seguros como ficar de pijama em casa.

Então, para saber se a qual versão da normalidade deve triunfar, a velha ou a nova, vai ser preciso esperar. 

Convém não exagerar a importância do assunto, de qualquer forma.  Apesar da bolha nas redes sociais dos leitores do Baguete provavelmente mostrar todo mundo trabalhando em casa, o home office é uma realidade para poucos.

De acordo com o IBGE, a população ocupada no Brasil é estimada em 81,1 milhões, e os trabalhadores em home office representam 11,6%.