Jennifer Morgan teve uma passagem relâmpago pela liderança da SAP. Foto: SAP.

Jennifer Morgan não é mais co-CEO da SAP. Pouco mais de seis meses depois de nomear dois novos executivos para dividirem o comando da gigante de software de gestão empresarial, o conselho decidiu demitir Morgan, concentrando todo poder nas mãos de Christian Klein.

Em e-mail enviado aos funcionários pouco depois da meia noite desta quarta-feira, 22, o presidente do conselho e fundador, Hasso Plattner, justificou a reviravolta como uma reação à crise gerada pela pandemia do coronavírus.

“O mundo como nós o conhecemos foi virado de cabeça para baixo por um vírus que afeta nossa vida, nosso trabalho e nossas famílias de uma maneira que não poderia ser prevista. Nesse cenário, o modelo de co-CEO não é mais o certo”, escreve Plattner no e-mail. “Essa crise faz velocidade, clareza e determinação necessárias”, agrega.

O Handelsblatt, o principal jornal de economia da Alemanha, não comprou a versão da SAP.

De acordo com a publicação, uma disputa de poder já vinha em curso nos bastidores, opondo Klein, que defende unificação e centralização da gestão, contra a demitida Morgan, que defenderia mais independência para as subsidiárias da companhia.

A nomeação de Klein e Morgan pegou o mercado por surpresa em outubro. Os dois executivos são relativamente jovens (39 e 44 anos) e substituíram Bill McDermott (58), que vinha liderando a empresa há quase uma década.

Duas semanas depois, McDermott foi anunciado como novo CEO da ServiceNow, tradicionalmente conhecida por sistemas de gerenciamento de TI.

Na época, muito se falou do fato de Morgan ser a primeira mulher a liderar uma empresa do DAX, o grupo das maiores empresas alemãs com ações abertas na bolsa, e parte do grupo relativamente pequena de executivas à frente das grandes de tecnologia.

O modelo de ter dois CEOs à frente da empresa já foi usada três vezes nos quase 50 anos de história da SAP, incluindo um período entre 2010 e 2014 quando o próprio McDermott dividiu o comando com outro executivo antes de assumir o controle.

A carta de Plattner não dá muitos detalhes sobre o motivo de Klein ser o escolhido, o que dificilmente aconteceria em um documento que o fundador com certeza saberia que acabaria na imprensa.

Para a Spiegel, a maior revista semanal do país, a decisão faz parte de uma uma prática comum da SAP.

"A companhia está acostumada com gestores que são hypados por Plattner perdendo sua preferência e chefes caindo em golpes surpreendentes", aponta uma matéria da revista.

De acordo com a Spiegel, Klein é considerado um executivo modesto e pé no chão, em contraste com McDermott, um vendedor carismático com gosto pelo palco, dentro da tradição do CEO showman dos Estados Unidos.

Uma das decisões tomadas por Klein foi incluir no board da empresa Thomas Saueressig, um técnico que estudou na mesma universidade que o CEO e também fez carreira na SAP.

"Depois de uma excursão por métodos de gestão americanos, a SAP parece estar voltando para as suas raízes", analisa a Spiegel.

Klein tem um rojão para segurar. Na última divulgação de resultados, a SAP revistou para baixo suas metas para 2020, estimando que a crise do coronavírus possa causar uma queda nas vendas de entre € 1,4 e € 1,9 bilhão.

Se a previsão se cumprir, as receitas da SAP ficarão em algum lugar entre € 27,8 bilhões e € 28,5 bilhões, o que, mesmo no pior dos cenários, ainda vai ser um pouco melhor do que os € 27,55 bilhões de 2019.