MERCADO

Por que o Uber Eats deixou o Brasil?

24/01/2022 14:11

O mercado de delivery não é nada fácil nem mesmo para os grandes. 

Por que o Uber Eats deixou o Brasil? Foto: divulgação.

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Por ter tido a oportunidade de ajudar na gestão e ganho de escala do iFood, muitos amigos têm me questionado sobre os motivos que levaram o Uber a encerrar o Uber Eats no Brasil, sua divisão de delivery de alimentos. Mas o que pode tê-los assustado a ponto de abandonarem o mercado para Rappi, iFood e alguns outros menores?

Em seu comunicado oficial, o Uber vai mudar sua estratégia para focar apenas em entregas de supermercados, lojas e pacotes last mile e o Uber Eats continuará funcionando apenas até 7 de março. O delivery tem um papel excepcional nessa pandemia, pois esse consumo é influenciado por fatores como a economia, acessibilidade e cultura, segundo a Dra. Rosa Garcia da USP. Pilares estes que foram completamente influenciados pela chegada do Coronavírus e agora outras "novas" doenças também.

Como especialista em inovação e startups no Brasil, digo que esse mercado de delivery não é nada fácil nem mesmo para os grandes. Quero mostrar alguns fatores que podem ter impactado nessa tomada de decisão:

UBER EATS CRESCEU, MAS DÁ PREJUÍZO

Apesar das vendas (GMV) e receita do Uber Eats quase triplicarem durante a pandemia, não cresceu tanto quanto a o "Uber Eats Asia", e também se mantém dando prejuízo, uma vez que a batalha acirrada pela fome do consumidor consome caminhões de dinheiro em marketing, desconto tanto para o consumidor quanto para o restaurante e incentivos financeiros para reter a preferência por entregas dos motofretistas.

De acordo com levantamentos da Measurable AI, em 2021, empresa que analisa Notas Fiscais Eletrônicas por meio de inteligência artificial gerando dados "mais oficiais", e ainda há uma hegemonia muito grande do iFood perante o UberEats e demais concorrentes como mostrado no gráfico a seguir:

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Podemos observar que o iFood ainda retém cerca de 80% das NF eletrônicas no Brasil, enquanto o Uber Eats têm 10%. Por uma prática de parte das startups em não gerar lucro, todo o caixa livre pode ser reinvestido no crescimento por meio de cupons de descontos e marketing como mencionado anteriormente. E segundo o CFO do iFood, é uma escolha da empresa dar prejuízos nos balanços patrimoniais em busca de crescimento e fidelização do cliente.

 Outro dado que confirma essa diferença de market share é o mapa de presença desses aplicativos em todo o Brasil: o Uber Eats tem visivelmente menos presença que o primeiro lugar.

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FALTA DE CUSTOMIZAÇÃO E AUTONOMIA

Como a maioria das empresas globais, o Uber Eats possui governanças que precisam ser seguidas para facilitar a "ordem na casa". Já tive a oportunidade de contribuir com startups globais e pedir customização de plataformas e políticas era um verdadeiro parto. E customização é essencial para que uma plataforma ou startup se misture com a cultura e crenças locais para que fique mais atrativa aos parceiros e consumidores.

Essa falha não costuma ser uma falha da empresa, mas é importantíssima para uma expansão mais eficaz para outras culturas.

NÃO TER ATINGIDO SEU PLENO POTENCIAL COMO O IFOOD.

Apesar do Uber Eats ser um dos grandes players de delivery no mercado tupiniquim, ele ainda ficou longe de atingir seu pleno potencial.

Uma das estratégias de algumas startups é crescer mesmo dando prejuízo, pois acredita-se que com uma base de clientes suficientemente grande, é possível reverter os prejuízos e ganhar dinheiro. E uma das formas para ganhar esse dinheiro é por meio de novas unidades de negócios, estratégia essa que o Uber não conseguiu explorar tão bem durante sua estadia por nossas terras.

Vamos pegar o iFood como exemplo. Iniciou suas operações em 2011 ganhando comissão e mensalidade sobre as vendas de comida. Já em 2015, começou a fornecer o serviço de entregadores também. Em 2016, passou a revender embalagens para os restaurantes, e pouco tempo depois, vendo que a brincadeira era legal, começou a vender insumos como ingredientes e equipamentos também além do supermercado para os consumidores finais.

Em seguida criou sua própria adquirência ou subadquirência para a prestação de serviços de cartão de crédito, que antes era terceirizada para a Elavon da Stone, depois veio o iFood Pay, meio de pagamento "por QR code" e que evoluiu para Mobile Pay que também possui Contas Digitais atualmente (banco).

Em cada um desses serviços, o iFood cobra uma parte como qualquer banco ou prestador de serviços. Ele cria e fornece novos produtos e serviços para a sua própria base de consumidores e clientes que já possui.

E além dos serviços listados anteriormente, iFood também oferece seguros para restaurantes e mais recentemente, o "vale refeição iFood". Todos esses produtos certamente já estavam mapeados pelo time de gestão do Uber Eats, entretanto não tiveram tempo hábil para implementá-los e gerar melhores resultados para a unidade de negócios Uber Eats.

RISCO POLÍTICO BRASIL

O Presidente Bolsonaro sancionou no dia 5 de janeiro de 2022 o projeto de lei que obriga empresas de aplicativos a contratar para seus entregadores seguros para acidentes durante o período de trabalho. As apólices não poderão ter franquia e devem cobrir acidentes pessoais, invalidez permanente ou temporária e morte, entre outras questões, segundo a Secretaria-Geral da Presidência da República.

Estudo o mercado do delivery online há quase uma década, desde que fui um dos gestores do iFood e ajudei algumas outras grandes startups relacionadas, mas é um segmento agressivo, difícil e complexo.

Certamente a saída do Uber Eats do Brasil não foi à toa e conseguimos discutir todas as questões por horas afins. Caso não concorde ou tenha algum outro ponto que acabei esquecendo de mencionar, deixa aqui embaixo nos comentários.

Por Dennis Nakamura, especialista em economia digital, cofundador, mentor, consultor e sócio de várias Healthtech, Foodtech e outras startups.

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