FISL se despede de Porto Alegre. Foto: flickr.com/photos/fisldezesseis

O Fórum de Software Livre, evento que marcou uma época em Porto Alegre e no país, acabou. Pelo menos no formato e no local nos quais era conhecido. 

Associação Software Livre, organizadora das 18 edições do FISL, comunicou a decisão nesta terça-feira, 23. 

“A nova gestão da entidade, eleita em 15 de dezembro de 2018, após pesquisa de mercado conduzida por consultoria externa, optou por reposicionar o conteúdo, data, formato e local, do Fórum Internacional Software Livre”, aponta a ASL.org em nota.

O texto agrega ainda que “todas ações de reposicionamento serão comunicadas em cronograma específico, a ser lançado por esta coordenação até o final do primeiro semestre de 2019”.

A decisão foi tomada a partir de uma pesquisa respondida por 3,5 mil pessoas, destaca a ASL.

A nova gestão, que assumiu em dezembro do ano passado, parece estar disposta a promover uma grande virada de rumos na associação.

Pelo menos é o que dá a entender a linguagem da nota, que fala em “balizar todas suas decisões por indicadores claros e de mercado, que suportem tomada de decisão na difusão, uso e desenvolvimento de softwares livres e de código aberto”.

A escolha de palavras é chamativa, em especial “indicadores claros e de mercado” e “código aberto”, que não encaixam com a linha do evento nos últimos anos.

A nota é assinada por Fabrício Reis, coordenador Geral da Associação Software Livre. Reis é um empresário, CEO, da Natureza Digital, uma fornecedora de software para órgãos públicos na área de Meio Ambiente.

O FISL foi cancelado por falta de patrocinadores em 2017 e aconteceu numa versão muito reduzida no ano passado, para um público esperado de entre 1,5 mil e 2 mil participantes.

É uma quantidade bem abaixo dos 7 mil público médio dos anos dourados. O maior FISL de todos foi o de 2009, com a presença do então presidente Lula e cerca de 10 mil pessoas.

O FISL acontecia na capital gaúcha desde 2000, em todas edições menos uma no centro de eventos da PUC-RS. 

O evento foi durante um bom tempo foi um ponto de encontro para o debate sobre o avanço de software open source na administração pública brasileira.

Não por acaso, os problemas do FISL começaram com a saída do poder do PT, partido que abraçou de maneira mais consistente a defesa do uso de open source no governo.

A primeira edição do Fisl, em 2000, aconteceu durante o governo de Olívio Dutra (PT) apresentando cases de quase uma década de adoção de software livre nas gestões petistas de de Porto Alegre nos anos 90.

Com a chegada do PT a Brasília, o evento começou a receber o apoio continuado de empresas públicas e ministérios e passou por uma era de expansão, chegando ao recorde de 2009.

Ao mesmo tempo, profissionais ligados ao software livre em Porto Alegre, como Rogério Santanna e Marcos Mazoni, chegaram a altas posições em Brasília, como a presidência da Telebras e do Serpro.  

Eles, junto com dezenas de colaboradores das suas empresas, eram figuras carimbadas no evento.

Marcelo Branco, presidente da ASL por um período, chegou a trabalhar com iniciativas de mídias sociais na primeira campanha de Dilma Rousseff para a presidência (não foi uma participação bem sucedida, mas ilustra o nível dos contatos da associação). 

Em nível estadual e municipal, essa associação não prejudicou o Fisl, com governos de diferentes matizes apoiando o que viam como um evento benéfico para Porto Alegre. 

Em 2016, foi aprovado um projeto de lei que inclui o evento no calendário oficial da cidade. O prefeito José Fortunati, um ex-petista hoje no PDT, recebeu uma homenagem do evento no ano passado.

A “tempestade perfeita” que atinge o FISL já vinha se desenhando desde 2015, quando, o FISL aconteceu já sob a sombra do impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

Os novos governos em nível municipal, estadual e federal cortaram as verbas de patrocínio, em meio à crise econômica e novas prioridades em nível de política de tecnologia.

Com a vitória de Jair Bolsonaro nas últimas eleições federais, a política de substituição de software livre por soluções proprietárias acelerou em nível federal e as chances de apoio do governo ao evento foram completamente anuladas.

Os patrocinadores privados, por sua parte, na maior parte das vezes usavam o FISL como uma plataforma de captação de currículos dos jovens profissionais que formam a grande maioria dos frequentadores do evento (não foi por outro motivo que nomes ligados à ASL.org, incluindo Branco, trabalharam nas primeiras edições do Campus Party no Brasil).

Para se tornar mais atrativo para as empresas de tecnologia a ponto de poder ser bancado majoritariamente por dinheiro privado, o FISL provavelmente teria que ser remodelado até se tornar um evento completamente diferente, o que parece estar na pauta da nova gestão da ASL.org.

É uma queixa frequente de profissionais de TI presentes nas primeiras edições que com o passar dos anos o Fisl se tornou “ideológico demais”, à medida em que o movimento se integrava com a pauta da esquerda de maneira geral.