Glenn Ricard. Foto: Baguete.

Alguns dos maiores players da indústria de TI e o governo americano estão fazendo um esforço conjunto para levar os últimos avanços em cloud computing e redes definidas por software para o mundo do governo eletrônico e dos serviços públicos.

A inciativa é coordenada por uma parceria público privada chamada US Ignite, que envolve fabricantes de equipamentos de telecom como Cisco, Extreme e Juniper, operadoras como AT&T, Verzion e Comcast e cidades como São Francisco, Filadélfia e Santa Mônica, além de órgãos equivalentes à Anatel e o Ministério de Ciência e Tecnologia nos Estados Unidos.

“A meta é levar para a população serviços propiciados por tecnologias que hoje só são usados por grandes datacenters”, explica Glenn Ricard, um dos pioneiros da Internet americana e ex-CTO da Novell, hoje à frente da ONG.

Ricard acredita que cada vez mais serviços como telemedicina e educação, além de aplicações de segurança e prevenção de desastres naturais deverão ser oferecidos nas residências dos cidadãos.

Para que isso aconteça, no entanto, as cidades e empresas interessadas precisam aprender a fazer uso de tecnologias ainda incipientes como redes definidas por software, para garantir a segurança das conexões e a priorização do tráfego mais importante.

“Você não pode deixar o tráfego de dados da Xbox do seu filho em pé de igualdade com os dados transmitidos em um exame médico online”, exemplifica Ricard, um dos keynote speakers do Ethernet Inovation Summit, evento comemorativo dos 40 anos da criação da Ethernet realizado pela Net Events em parceria com o Xerox Parc, Metro Ethernet Forum e o Computer History Museum em Mountain View, na Califórnia, nesta quinta-feira, 23.

Outro problema que o US Ignite trabalha para resolver é como atender o alto volume de dados adicionais nas redes que um cenário de uso massivo de telemedicina, educação a distância e monitoramento de segurança traria.

De acordo com Ricard, conexões de Internet mais rápidas, mesmo que cheguem a 1GB, não resolvem o problema, porque o aumento da banda não se reflete totalmente no incremento final da velocidade de transferência de dados e os sistemas de telecomunicações são construídos supondo que os consumidores não usem toda a capacidade disponível.

Os testes feitos pela Ricard apontaram que ao triplicar a banda disponível, em uma casa, para 25 MB, o ganho de velocidade na abertura de uma página foi de apenas 33%.

“Aumentar a velocidade na ponta adianta pouco quando os dados trafegam por tantos roteadores diferentes até serem entregues", analisa Ricard.

A solução para o problema sendo trabalhada nos 20 projetos atualmente em desenvolvimento dentro do US Ignite passa pela chamadas nuvens locais através dos quais os dados podem ficar mais próximos dos usuários, reduzindo os problemas de latência.

A AOL já lançou um produto que atenderia essa necessidade. O chamado AOL Microdacenter é do tamanho de uma mala grande e pode ser instalado ao ar livre, sendo operado remotamente por redes virtualizadas.

Segundo Ricard, esses pequenos data centers poderiam operar de maneira coordenada em caso de maior necessidade de processamento.

O US Ignite tem milhões de dólares em financiamento de grandes empresas interessadas em estimular a demanda por novas redes e outros tantos de um governo interessado em reduzir custos na prestação de serviços, então a pergunta é: como algo assim poderia funcionar no Brasil?

Ricard afirma que a ONG está em conversas com o GGI.br para transferir parte da experiência adquirida até agora e que a infraestrutura de rede disponível no país na realidade é favorável a projetos do gênero.

“O Brasil tem todas as peças necessárias para trabalhar projetos nessa linha”, explica o fundador da US Ignite, destacando que muitos roteadores de baixo custo atualmente no mercado já são compatíveis com Open Flow, o protocolo que faz as redes baseadas em software funcionarem e que muitas prefeituras já fizeram investimentos em infovias baseadas em fibra ótica.

O envolvimento de Ricard com o Brasil é antigo, o que dá um peso maior à sua opinião. Enquanto trabalhava na Universidade de Maryland, o americano participou da instalação do primeiro cabo de dados conectando os Estados Unidos e o Brasil, em parceria com a UFRJ no final dos anos 80.

“Foi muito trabalhoso importar o roteadores necessários com as restrições da reserva de mercado”, afirma Ricard, sem perder parte do assombro com as invenções econômicas verde amarelas 30 anos depois.

* Maurício Renner cobre o Ethernet Inovation Summit à convite da Net Events.