Ivete Sangalo, durante a gravação do comercial da Huawei.

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A Huawei contratou a cantora Ivete Sangalo para ser a estrela da primeira campanha publicitária no Brasil, consolidando a sua ofensiva de relações públicas no país, que já contava com o ex-presidente Michel Temer.

As propagandas com Sangalo estreiam na TV aberta nesta quinta-feira, 25, e devem mostrar “projetos, trabalhos e contribuições da empresa para o desenvolvimento e a infraestrutura do país”, segundo aponta a Huawei em nota.

O filme mostra um paralelo entre a carreira da cantora e a presença da Huawei no Brasil, iniciada em 1998.

“O Brasil é um país com muito potencial tecnológico e fico grata de poder caminhar junto com uma empresa que acredita no nosso país”, afirma Sangalo.

Além dos anúncios da TV, Sangalo estará em uma grande campanha que inclui mídia OOH (Out of Home), mídia digital, posts nos canais oficiais da Huawei BR (Instagram, Facebook, Youtube), um time de embaixadores, uma websérie de 10 capítulos contando a história da empresa no Brasil e uma landing page que reúne ações e iniciativas que sustentam a parceria da Huawei com o desenvolvimento do Brasil.

O objetivo de tudo isso, como o leitor pode imaginar, é levantar poeira no futuro leilão da tecnologia para implementação do 5G no Brasil. 

"Mais do que oferecer tecnologia de ponta e inovação, a Huawei tem um histórico de parceria do Norte ao Sul do Brasil. Com a evolução da tecnologia 4G para 5G, é chegada a hora de construirmos a parceria do futuro", afirma Guo Yi, vice-presidente da Huawei Brasil.

O problema para esse nobre objetivo até agora eram as inclinações políticas do governo Bolsonaro, que, seguindo a diretriz do ex-presidente americano Donald Trump, cogitava barrar a participação da Huawei no leilão alegando temores de espionagem.

A gigante chinesa, é claro, está lutando com unhas e dentes contra essa orientação, com sinais de que deve ser bem sucedida.

Aliando sua imagem a Ivete Sangalo, uma das artistas mais populares do país, a Huawei ganha corações e mentes do público em geral.

Enquanto isso, mais discretamente, o ex-presidente Michel Temer age em Brasília.

No final de janeiro surgiu a informação de que a Huawei havia contratado Temer para preparar um parecer jurídico contra o seu banimento do 5G.

Temer é professor de Direito Constitucional, mas existem muitos bons professores de direito constitucional no país.

Provavelmente, pesou bem mais a favor do ex-presidente o fato de ter uma boa relação com o presidente Jair Bolsonaro, uma rede de aliados no Congresso Nacional e uma capacidade invejável de articulação em bastidores.

O parecer e o engajamento de Temer na defesa do mesmo seriam uma arma importante para a gigante chinesa de telecomunicações nas comissões criadas na Câmara e no Senado para debater o eventual banimento da 5G da Huawei.

Além disso, o atual presidente do conselho diretor da Anatel, Leonardo Euler de Morais, foi indicado por Temer e tem mandato até 4 de novembro de 2021. 

BRIGA IDEOLÓGICA DIVIDE O GOVERNO

Ainda em junho do ano passado, o presidente Bolsonaro sinalizou que poderia deixar a Huawei de fora da infraestrutura do 5G brasileiro, durante uma das suas lives no Facebook.

Durante a transmissão, Bolsonaro disse que o certame, previsto para acontecer no primeiro semestre de 2021, levará em conta a “soberania, a segurança de dados e a política externa”.

Bolsonaro estava então alinhado ao presidente americano, Donald Trump, o maior defensor do banimento da Huawei dos leilões de 5G mundo afora.

A linha de Trump era pressionar países aliados para não comprar tecnologia da Huawei para o 5G, afirmando que o governo chinês pode usar o equipamento para fazer espionagem. 

Poucos países mostraram muito entusiasmo pela proposta, que no final das contas favorece fabricantes americanos como a Cisco. 

Uma das exceções era Bolsonaro, o fã número 1 de Trump, sob a influência ainda do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Augusto Heleno.

Na época, a Huawei divulgou uma carta pública bastante morna, destacando sua presença no Brasil. O maior lobby em prol da fabricante chinesa vinha até agora das operadoras de telecomunicações, que querem comprar equipamentos mais baratos para o 5G.

No dia 13 de janeiro, os presidentes das cinco maiores operadoras do país falaram sobre o tema com o ministro das Comunicações em uma videoconferência. 

O cenário mudou muito entre junho de 2020 e janeiro de 2021 e não só com a disposição da Huawei de investir mais pesado na própria defesa, chamando para o seu lado um nomes com o peso de Michel Temer e Ivete Sangalo, referências no campo da articulação política e do axé.

Para começar, Donald Trump não é mais presidente dos Estados Unidos. É provável que o seu sucessor, Joe Biden, busque uma linha de confrontação menos estridente com a China, e, por tabela, dê mais margem para a Huawei no 5G, pelo menos fora dos Estados Unidos.

Além disso, a administração Bolsonaro teve que engolir a desdenhada vacina chinesa para o coronavírus, no momento a única disponível em larga escala no país. 

O Brasil também depende da China para importar matéria prima para fabricação da alternativa, a vacina da AstraZeneca.

Além de tudo isso, o país é o principal importador de commodities agrícolas do Brasil, motivo pelo qual o agronegócio vem cobrando um pouco mais de tato de Bolsonaro.

A Huawei está no Brasil há 22 anos, tem 1,2 mil funcionários no país e atua com 500 parceiros, os quais empregam mais de 15 mil pessoas. 

A empresa também tem projetos de pesquisa e desenvolvimento com CPQD e Inatel e a formação de 30 mil profissionais em academias em cooperação com instituições de ensino.

O chanceler Araújo e a sua linha histriônica contra a China estão em baixa. O país precisa de vacinas. 

A preocupação com a possibilidade de espionagem parece um pouco exagerada, tendo em conta dados pessoais de aparentemente todos os brasileiros foram hackeados e estão disponíveis na Internet.

A Huawei pode ficar tranquila.