Uma indústria precisando de uma renovação? Foto: flickr.com/photos/futureshape

A VMware chamou a atenção do mercado esta semana ao investir US$ 1,26 bilhão na compra da Nicira, uma startup especializada em uma tecnologia aberta de gestão de tráfego de rede baseada no padrão Open Flow.

O negócio é a ponta do iceberg de um movimento mais amplo, que visa a revolucionar a indústria de networking, nos moldes do que representou a migração dos mainframes para a área de computação.
 
Pelo menos é o que garante Dan Pitt, diretor executivo da Open Networking Foundation, uma entidade sem fins lucrativos criada em 2011 pela Deusche Telekom, Facebook, Google, Microsoft, Verizon e Yahoo com o intuito de fazer avançar o conceito das redes de dados definidas por software (SDN, na sigla em inglês).
 
“A indústria de networking ainda tem uma mentalidade da era do mainframe, com empresas vendendo o hardware, o sistema operacional e as aplicações em um pacote só. Isso cria complexidade, freia a inovação e trava o crescimento”, apontou Pitt em uma apresentação para jornalistas e analistas realizada durante o NetEvents Américas em Miami nesta quarta-feira, 24.
 
A visão que a ONF promove envolve a separação do fluxo e da gestão do tráfego de dados, com o segundo sendo guiado por um padrão aberto, operando em uma camada externa aos roteadores e switches e outros equipamentos.
 
A Nicira possui uma das soluções líderes em tráfego de dados baseado nesse modelo, o que complementa a visão da VMware de criar um data center totalmente virtualizado e baseado em software. 
 
O tamanho da aposta bilionária da empresa fica evidente na comparação com a análise da consultoria especializada Dell’Oro Group, que prevê que o mercado SDN como um todo – no qual o Open Flow é apenas a parte mais visível – deve saltar de US$ 200 milhões no ano passado para cerca de US$ 2 bilhões até 2016.
 
Mas como as fabricantes de equipamentos de rede estão respondendo ao conceito de SDN? A ONF é controlada por grandes usuários de data center, que tem interesse em um maior controle sobre os equipamentos, mas também possui mais de 60 associados na indústria como um todo.
 
Embora não detenham o direito de voto das sete fundadoras, empresas como Brocade, Dell, Extreme, HP e inclusive a líder de mercado Cisco, após inicialmente rejeitar o tema, já estão colocando no mercado switches habilitados para funcionar com tecnologia Open Flow.
 
Parte da reticência das fabricantes pode se explicar pelo temor que, com a migração dos sistemas para fora dos aparelhos, esses percam o diferencial e se comoditizem, a exemplo do que aconteceu na indústria de computação com os PCs.
 
A Extreme Networks, umas das fabricantes que mais apostou até o momento em SND acredita, talvez de maneira pouco surpreendente, que não é bem assim.
 
“Open Flow e softwares não são tudo. Em networking, sempre haverá margem para diferenciação com base em características de resiliência e latência”, afirma Shezad Merchant, VP de tecnologia da Extreme.
 
Uma opinião bem mais reticente vem do lado da concorrente Enterasys, uma das poucas fabricantes a não aderir ao ONF e cuja aposta permanece na sua própria tecnologia de administração de fluxo de dados, que a empresa afirma ser pioneira no mercado.
 
“O futuro dirá, mas no momento vejo essa abordagem mais restrita a produtos para consumidor final. No enterprise, a demanda por desempenho é o mais importante”, acredita Ram Applaraju, VP de Tecnologia da Enterasys. 
 
A ONF, por sua parte, prefere situar a discussão em termos mais amplos, nos quais as possibilidades abertas pelas redes de dados definidas por software criarão uma onda perante à qual as fabricantes terão que aderir para não ficar de fora do mercado.
 
O argumento está em linha com a visão que levou à criação do conceito na universidade de Stanford há 10 anos, por professores que acreditavam que a pesquisa sobre redes havia se tornado derivativa, precisando de um recomeço do zero.
 
De acordo com a entidade, o novo approach tem apelo para uma geração de programadores novos, podendo criar assim um boom de novos aplicativos criados por starups focadas no mercado de networking, a exemplo do que aconteceu com os celulares.
 
“Um standart aberto abre um campo fértil para a criação de toda uma gama de aplicativos que, a exemplo do que acontece nos smartphones, serão os drivers de valor dos produtos no futuro”, prevê Pitt.
 
O executivo vê possibilidades de criação para aplicativos para segurança, gerência de tráfego, cumprimento de regulações do governo e acesso a sites.
 
Para Pitt, com cada vez mais entretenimento chegando ao consumidor final em casa por meio de redes, o consumidor vai se interessar mais por administrar seus roteadores, hoje um equipamento que só é notado se deixa de funcionar.
 
Se vai ser assim mesmo é uma coisa que só o tempo – e alguns bilhões de dólares pelo caminho – dirão.
 
* Maurício F. Renner cobre o NetEvents Américas em Miami à convite da organização do evento.