Fabio Covolo Mazzo Foto: divulgação

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A China vem investindo alto num campo em que manteve pouca expressividade até alguns anos atrás: o de softwares. E isso não se limita aos aplicativos proprietários, com representantes já famosos como TikTok, Kwai e WeChat. A atividade chinesa também é crescente no terreno do código aberto (open source), em que linguagens de programação de sistemas são estudadas e disponibilizadas livremente para modificação e aplicação em diversas finalidades.

São cada vez mais numerosas, por exemplo, as doações de algoritmos desenvolvidos por chineses para as principais organizações que mantêm projetos de código aberto, entre elas a Linux Foundation e a Apache Software Foundation (ASF). No momento em que escrevo este artigo (final de novembro de 2021), a China é responsável por 33% dos repositórios mais em alta no trending do GitHub – principal plataforma mundial de códigos-fonte para programadores. 

Também se destaca o fato de a China já constituir o terceiro país com mais colaboradores do Cloud Native Computing Foundation, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha (o Brasil ocupa a 13º posição). 

E não podemos deixar passar em brancas nuvens outra amostra do avanço do dragão asiático em software livre: o Deepin, distribuição Linux que visa substituir o Windows em solo chinês e que tem conquistado usuários em todo o mundo por sua facilidade de uso e pela interface atraente.

Plano estratégico

A transição de consumidora a influenciadora em open source, um ambiente dominado historicamente pelos Estados Unidos, é um dos pilares para a consolidação da China como potência em tecnologia e inovação. 

Desde o décimo Plano Quinquenal, elaborado com vistas ao período de 2001 a 2005, o desenvolvimento de software é tratado como algo estratégico para a economia chinesa.

“Precisamos desenvolver a indústria de software, fortalecer o desenvolvimento da infraestrutura de informação e aplicar tecnologias digitais e de rede extensivamente no desenvolvimento técnico, atividades de produção e marketing de empresas, e em serviços públicos e administração governamental, para que a industrialização e a revolução da informação andem de mãos dadas”, declarava, em março de 2001, o então primeiro-ministro chinês, Zhu Rongji.

Para um país que optou pelo isolamento em diversos temas relacionados à informatização, o envolvimento com código aberto sinaliza uma busca por maior integração à infraestrutura de tecnologia mundial, além de um maior alinhamento chinês a princípios internacionais de propriedade intelectual. Cumpre sempre ressaltar que os códigos abertos não são exatamente gratuitos. Para tirar o melhor proveito deles, desenvolvedores e organizações têm de contribuir ativamente com as comunidades que os sustentam.

A aposta chinesa em open source faz todo sentido do ponto de vista econômico. O conhecimento de código aberto estimula a formação de uma mão de obra extremamente qualificada e em falta no mercado mundial. Ao promovê-la e absorvê-la, a China obtém um diferencial competitivo valioso na nova economia, muito mais centrada em serviços. 

Por fim, os próprios softwares livres podem se transformar em grandes negócios. Diversos sistemas de código aberto hoje obtêm receitas enormes com suporte, e startups da área vêm se tornando unicórnios (com valoração superior a US$ 1 bilhão). A China demonstra ter se convencido de que o envolvimento no open source abrevia a resolução de problemas e o desencadeamento de inovações em diversas frentes. É uma oportunidade que as nações não podem ignorar.

*Fabio Covolo Mazzo é principal software architect da CTC, empresa especializada em soluções e serviços de tecnologia voltados para transformação digital, inovação e aceleração de negócios