Situação definida no Serpro.

Caio Mario Paes de Andrade assumiu oficialmente como presidente do Serpro nesta terça-feira, 26.

O nome de Andrade já circulava desde o dia 02 de janeiro, mas a nomeação foi complicada pelo conselho de administração da estatal federal de processamento de dados.

Segundo fontes da empresa ouvidas pelo Baguete, o conselho do Serpro avaliou que a participação de Andrade em algumas empresas privadas gerava um potencial conflito de interesse que impediria sua nomeação, pelas regras da Lei de Estatais de 2016.

A lei prevê que não é possível nomear para o comando de estatais “pessoa que tenha firmado contrato ou parceria, como fornecedor ou comprador, demandante ou ofertante, de bens ou serviços de qualquer natureza” nos três anos anteriores.

Não está claro se o conselho mudou de ideia ou se Andrade deixou de ter as participações que causaram o problema.

Andrade participou do boom da Internet brasileira, no final dos anos 90. Em 1999, ele era presidente da PSINet Brasil e diretor-geral para América Latina. Adquiriu e consolidou 15 provedores de acesso na região, sendo o principal deles o STI em São Paulo.

Em 2000, fundou a WebForce, empresa que atua como incubadora/aceleradora de novos empreendimentos. De 2010 para cá, a WebForce se consolidou e tem em seu portfólio marcas e serviços como 123i, Emoda, Newcore e Credihome. 

Andrade, uma nomeação do ministro da Economia, Paulo Guedes, vai liderar o Serpro no que promete ser um período conturbado.

Recentemente, o secretário especial de desestatização e desinvestimento, Salim Mattar, garantiu que Serpro e Dataprev serão “privatizadas, vendidas ou fechadas”, durante um evento promovido pela revista Voto.

Mattar falou das estatais federais de processamento de dados como parte das quatro estatais que estão sob a responsabilidade do novo ministério da Economia (as outras duas são IRB e Casa da Moeda), e, que, portanto, ofereciam menos impedimentos para uma movimentação desse tipo.

O empresário, fundador da Localiza, reconheceu que estava falando de metas, e não de fatos consumados. 

Estatais sob o controle do ministério da Economia sofrem menos empecilhos para uma privatização, uma vez que é necessário menos convencimento, frente a outras estatais sob o controle de outros ministérios. Talvez a Economia queira dar o exemplo.

Segundo o Baguete pode apurar, Andrade tem dito em reuniões internas com funcionários que o Serpro é “imprivatizável”. 

Mattar quer soltar balões de ensaio para a agenda de privatizações do ministério da Economia, Andrade deve ter em mente minimizar os efeito dos balões nas equipes. O que vai acontecer de verdade neste é uma incógnita.

Talvez o governo se volte para os planos de fusão de Dataprev e Serpro, um plano que já circula em Brasília desde o governo Dilma Rousseff. 

Christiane Almeida Edington, ex-CIO da Telefônica Brasil, deve ser a nova presidente da Dataprev e tem um perfil parecido com o de Andrade.

A estratégia de TI do governo federal está em transição desde o final do governo Dilma, com a saída de cena do foco prioritário em desenvolvimento interno baseado em software livre rodando sobre infraestrutura própria a entrada de soluções proprietárias e computação em nuvem de fornecedores privados.

Uma fusão entre Serpro e Dataprev,  seguida de um enxugamento de quadros e um foco maior em gestão de contratos com a iniciativa privada entregaria uma mudança em linha com as diretrizes do governo.

Em caso de fechamento das estatais, essa função poderia ser internalizada no ministério da Economia, ou em algum órgão que assumisse um papel de "CIO" para o governo federal.

Uma tentativa nesse sentido já foi cogitada no governo Temer, sob a batuta de Marcelo Pagotti, secretário de Tecnologia da Informação e Comunicações do Ministério do Planejamento.

Mas o “plano CIO” foi engavetado, deixando a Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicações na mesma posição de falta de influência sua antecessora, Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação, capaz apenas de fazer recomendações sobre a estratégia de TI que cada órgão pode seguir ou não.

Ainda mais complicado seria uma privatização de Serpro e Dataprev. O principal ativo das empresas é o seu acesso privilegiado ao cliente governo por meio de leis que priorizam a contratação de seus serviços, além da disposição em tolerar atrasos no pagamento dos clientes.

Numa empresa privada, o acesso privilegiado seria perdido, assim como a disposição em ser pago com muito atraso.