Heloísa analisou a descoberta do mundo virtual em sua tese. Foto: arquivo pessoal

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Computador e internet em sala de aula desde cedo pode fomentar a vontade de interagir, aprender, e mudar para melhor o aprendizado de crianças, especialmente de baixa renda.

Essa é uma das conclusões da professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem e de Comunicação Social da Unisul Heloísa Juncklaus Preis Moraes.

Em seu doutorado na PUC-RS, com orientação do professor Juremir Machado da Silva, ela observou as alterações, principalmente comportamentais, provocadas pela descoberta do computador em crianças do Projeto de Inclusão Digital oferecido pela Unisul.

A pesquisa “A descoberta e a vivência do virtual – experiências infantis” tornou-se livro com publicação da Diretoria da Imprensa Oficial e Editora de Santa Catarina (DIOESC).

Iniciado em 2002, o programa social da universidade atendeu 240 jovens, com 15 turmas em diversas escolas selecionadas pela instituição. Conforme constatação de entrevista socioeconômica, todos os educandos eram de baixa renda.

A professora optou por observar crianças de 9 a 10 anos de Tubarão que cursavam terceiras e quartas séries em escolas públicas e, paralelamente, eram participantes do programa.

“Minha ideia era entender esse processo como um fenômeno sociológico, saber elas descobriam e vivenciavam o mundo virtual”, explica.

Depois de realizar a base teórica, utilizando conceitos como sociologia compreensiva, de Michel Maffesoli, Heloísa foi a campo para entender as experiências das crianças após os primeiros contatos com o computador.

“Elas se mostravam encantadas enquanto descobriam as possibilidades do mundo virtual. Isso modificou a maneira como elas se comportavam em sala de aula. Essas crianças se tornaram mais participativas”, conta.

Além de acompanhá-las no projeto, onde tinham atividades que envolviam blogs e pesquisa, Heloísa observou as reações em sala de aula e o reflexo no ambiente familiar.

FALTA DE INSTRUÇÃO

Heloísa aponta que, tanto na sala de aula, quanto em casa, os envolvidos não estavam preparados para lidar com as mudanças no comportamento dos estudantes.

“A descoberta não era incentivada pela escola que não tem estrutura de um laboratório de informática, por exemplo. As professoras diziam que os alunos estavam mais curiosos, e participativos e que isso as incomodava”, conta.

Com isso, ela percebeu que as alterações perturbavam a rotina dos educadores por falta de preparação.

No ambiente familiar, as crianças trocavam experiências com os familiares, que também desconheciam a  ferramenta.

Os pais demonstravam uma boa recepção, mas não tinham consciência da importância. “Muitos me diziam que não sabiam o que é internet e tinham uma visão apenas instrumental, entendendo que aquilo poderia gerar empregos no futuro, sem ter o entendimento da amplitude de conhecimento”, analisa.

Entre os alunos observados, Heloísa destaca um menino de 9 anos que não tinha televisão em casa.

“Esse detalhe me interessou. A família se informava pelo rádio porque não tinha um televisor. Depois que iniciou no projeto, o menino quis um computador, fez até campanha para que alguém lhe desse um. A internet abriu os olhos dele para o mundo”, relata.