Ernesto Araújo, uma das vozes da "ala ideológica" do governo. Foto: Marcelo Camargo/Ag. Brasil

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O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, trouxe a Huawei de volta para o centro das atenções ao dizer que a senadora Kátia Abreu (PP-TO) teria insinuado que um “gesto” favorável aos chineses poderia salvar a sua pele.

No Twitter, Araújo disse que o diálogo foi em um almoço no Itamaraty em 4 de março. Abreu teria dito que um “gesto” em relação à internet 5G em uma audiência a ser realizada no Congresso tornaria Araújo o “rei do senado”.

Os dois tweets não mencionam a Huawei, mas nem precisa. O Brasil está definindo as regras para o 5G, incluindo aí os fornecedores de equipamentos, dos quais os chineses são um dos principais fornecedores.

A chamada “ala ideológica” do governo, um grupo inspirado pelo escritor Olavo de Carvalho do qual Araújo é um dos expoentes, defende que a Huawei seja barrada, sob a alegação que a empresa facilitaria a espionagem chinesa. É a linha de argumentação do ex-presidente americano Donald Trump.

A Huawei, é claro, nega tudo e está fazendo uma ampla movimentação para entrar no 5G brasileiro, que vai desde contratar Michel Temer como lobista até uma campanha publicitária estrelada por Ivete Sangalo.

Segundo o Globo, a Abreu disse a colegas que os tweets de Araújo são parte de uma ação orquestrada nas redes bolsonaristas para espalhar que Arthur Lira e os senadores foram comprados pela Huawei.  A senadora não teria poupado adjetivos, chamando Araújo de “vagabundo”, “psicopata” e “mentiroso”, entre outras amenidades.

O presidente Jair Bolsonaro está sob pressão do Senado, de setores como o agronegócio e da maior parte da diplomacia brasileira para demitir Araújo. 

O consenso é que a atuação ideológica do chanceler e o conflito aberto com a China são prejudiciais para o Brasil, uma vez que os chineses são o principal destinos das exportações do país e controlam a produção de insumos para as vacinas contra o coronavírus.

Analistas acreditam inclusive que a manifestação de Araújo é na verdade uma tentativa de cavar uma saída honrosa, ao fazer sua demissão ser consequência de uma conspiração envolvendo a questão do 5G.

Araújo tem amigos influentes, como o filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, que também protagonizou ataques públicos à China. 

Ainda em junho do ano passado, o presidente Bolsonaro sinalizou que poderia deixar a Huawei de fora da infraestrutura do 5G brasileiro, durante uma das suas lives no Facebook.

Durante a transmissão, Bolsonaro disse que o certame, previsto para acontecer no primeiro semestre de 2021, levará em conta a “soberania, a segurança de dados e a política externa”.

Bolsonaro estava então alinhado ao presidente americano, Donald Trump, o maior defensor do banimento da Huawei dos leilões de 5G mundo afora.

Poucos países mostraram muito entusiasmo pela proposta, que no final das contas favorece fabricantes americanos como a Cisco. 

Nos últimos tempos, a maré vinha virando. Com a influência crescente do Centrão no governo Bolsonaro, as posições mais ideológicas como de Araújo parecem estar com os dias contados.

No médio prazo, as coisas parecem favoráveis à Huawei. No curto prazo, porém, a empresa voltou ao centro do fantástico mundo da narrativa bolsonarista raíz, onde tudo pode acontecer.