Nolan Bushnell curtindo um Atari na Campus Party. Foto: Flavia de Quadros/indicefoto

Uma hora antes de uma das palestras mais esperadas da Campus Party começar, o palco principal já fervia. Jovens circulavam com joysticks e cartuchos na expectativa de pedir um autógrafo para o convidado que subiria ao palco em seguida. O motivo da comoção atendia por Nolan Bushnell, fundador da lendária Atari, popular empresa de games nos anos 70 e 80.

A agitação deu lugar à concentração quando Nolan, com sua protuberante barriga, cabelos e barba branca, subiu no palco.

Em frente aos fãs, Nolan reconstituiu a sua história na Atari, com o início desenvolvendo jogos de fliperama, até a criação do Atari 2600, um dos primeiros consoles domésticos.

Visionário na idéia de perceber o potencial de levar os videogames para dentro das residências, o Sr. Atari não aproveitou totalmente os frutos do sucesso de sua ideia. Bushnell saiu da empresa em 1978, após entrar em conflito com a Warner, que adquiriu a companhia em 1976.

Com 30 milhões de unidades vendidas em toda a sua história, o Atari 2600 é considerado por muitos especialistas o marco zero do home gaming. Segundo o IGN, site norte-americano especializado em jogos eletrônicos, o 2600 é o "console que criou a base para toda a indústria de videogames no futuro".

Triste nota: em janeiro de 2013, depois de mais de duas décadas com poucos projetos de sucesso, a Atari Inc. declarou falência, após fechar 2012 com prejuízo de US$ 39,6 milhões.

JOGOS E EDUCAÇÃO

Nos últimos 40 anos, Bushnell acompanha o que acontece no mercado dos jogos. Na sua análise, o futuro está na evolução dos games com sensores de movimento, com o uso de ferramentas como o Kinect, do Xbox 360.

Nolan também prevê um aumento da popularização dos jogos online e no celular, justamente uma das forças que está enfraquecendo a indústria de games para consoles residenciais, como apontam muitos analistas.

Além disso, Bushnell salientou o papel dos jogos como instrumento de educação, ideia que o tornou fundador e CEO da Brainrush, empresa de jogos educativos.

“Os videogames ensinam mais rápido que qualquer outro método de ensino. É comprovado por pesquisas: estudantes que aprendem com jogos 40 minutos por dia entende o conteúdo 10 vezes melhor”, aponta.

Projetando o futuro, ele espera que em cinco anos o ensino seja 10 vezes mais rápido com a influência dos consoles. “Jogos são viciantes porque são máquinas de felicidade. Você se sente realmente feliz quando passa de fase”, empolga-se.

Sobre games e alegria, um fato curioso é que Bushnell, após sair da Atari, fundou a rede de pizzarias Chuck E. Cheese, que conta com cerca de 550 lojas nos Estados Unidos. Um dos diferenciais da rede é que todas as lojas contam com uma sala de arcade, com jogos eletrônicos para os clientes.

FUNCIONÁRIOS ILUSTRES

Ao relembrar sua história na Atari, o palestrante falou sobre a relação com Steve Jobs, de quem foi o primeiro e único chefe. “Às vezes ele fedia e também era um pouco arrogante. Mas era só colocarmos ele para trabalhar no turno da noite”, brinca.

Uma revelação sobre seu ex-empregado levou a plateia às risadas. “Eu tinha um bom amigo, um funcionário, o Steve Jobs, que me ofereceu um terço da Apple por US$ 50 mil. E eu disse não. Não se acerta sempre. Mas depois tive a chance de colocar um dinheiro na Cisco. Funciona ser meio louco às vezes”, acredita.

O fundador da Apple foi programador da Atari em 1976, quando programava o jogo Breakout. Segundo Bushnell ele passava o trabalho para o colega Steve Wozniak, com quem fundou a Apple. "Woz nunca foi meu funcionário. Eu tinha dois empregados pelo preço de um", ri.

CONSELHOS

Simples com seus tênis coloridos, o palestrante diz que a essência é acreditar. “Tenha curiosidade, disciplina, mude e redefina o significado de fracasso. Eu projetei jogos ruins. Um terço das minhas criações era impossível de jogar e eu não soube disso até lançá-los”, incentiva.

Quando fala sobre a produção de novidades, em tom professoral, o sr. Atari não deixa de tentar inspirar os jovens e por isso trouxe algumas regras. “Nunca, nunca, nunca cresça. É o prego da morte para a criatividade. Mantenha-se em um pé só para ser um pouco equilibrado e um pouco louco”, ensina.

O simpático senhor de 79 anos também enxerga que os jovens podem transformar a imagem do país. “Vocês brasileiros são conhecidos por uma mulher com frutas na cabeça [Carmem Miranda]. Tenho certeza que podem mais”, provoca.

FÃS

A ideia de trazer Nolan Bushnell pela primeira vez ao Brasil veio de um campuseiro. Héctor Moraes, jornalista formado pela Unisinos, ganhou seu Atari aos 6 anos e tinha o sonho de conhecer aquele que considera responsável por tudo que se tornou.

O gaúcho, que trabalha como Stage Manager da Campus Party através da Futura Networks, organizadora do evento, sugeriu o nome em uma reunião de brainstorm. E teve a ideia acatada.

“Vê-lo foi muito impressionante e forte. É como completar um ciclo na minha vida. É como conhecer, sei lá, Mick Jagger. Aprendi muito por causa do videogame e hoje estou trabalhando aqui por causa dele”, afirma Moraes.

*Juliana de Brito cobre a Campus Party Brasil 6, em São Paulo.