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Que é a maior reunião geek do Brasil, todos já sabem. Afinal, a Campus Party atingiu um nível de popularidade tamanho que é, por exemplo, noticiada em telejornais do horário nobre e publicações totalmente separadas de tecnologia.

Mas, além da grade de programação e dos principais palestrantes, pouco se sabe sobre o dia a dia do evento, a rotina dos acampados e as curiosidades flagradas em horários alternativos.

Passar sete dias acampada no Centro de Exposições Imigrantes trouxe mais do que dor nas costas, gerada pela falta de colchão nas barracas: trouxe o olhar de quem presenciou flashmobs a favor de Red Bull por R$ 1 e brigas por comida. Em seguida, um resumo deste dia a dia:

7h - 8h
Um dos horários críticos para quem está acampado e tem sono leve.

Como este é o horário do café da manhã, os alarmes de celulares começam a tocar descontroladamente. Cada barraca é separada por um palmo, de modo que é possível ouvir alarmes de cinco ou mais vizinhos.

Como alguns dormiram tarde, o despertador toca até cinco minutos (cronometrados por dois dias seguidos).

No primeiro dia, um trecho de funk em repeat. No segundo, algum tipo de música eletrônica.

Você quer levantar e tomar medidas drásticas, mas apenas vai para o banho, porque dormir torna-se impraticável.

9h
A hora do banho varia muito para homens e mulheres. Para eles, filas até na madrugada. Para elas, que representam apenas 25% dos participantes, possibilidade de escolher qual chuveiro de container melhor simula a vida real. Não demora até que se descubra a resposta: nenhum.

Esta também é a hora do café da manhã, um dos pontos altos para quem gosta de socializar.

A refeição é voltada a quem pagou o pacote de alimentação e consiste em uma sacolinha de plástico contendo uma caixa de achocolatado genérica, um biscoito recheado com goiaba, dois mini pães, uma fruta.

O tipo de escolha adequada para crianças de 1ª à 4ª série. Manifestações de ÔoôôÔo também acontecem neste ambiente, como uma forma torta de dar bom dia.

10h
A hora das palestras e debates. Cinco das seis áreas (Criatividade, Software Livre, Desenvolvimnento, Games, Mooding) têm palestras simultâneas.

Os palcos não têm separação física e estão distantes cerca de dois metros, quando muito. Para se fazer ouvir, o palestrante grita. Logo, os outros palestrantes são obrigados a fazer o mesmo, o que – não é preciso dizer – gera ainda mais ruído.

Mesmo com máxima atenção é difícil entender 100% do que é dito. O lado positivo está na facilidade de trocar de palestra.

11h
Hora da criançada solta pelo Centro de Exposições. A participação das mesmas é restrita ao Campus Forum e aos estandes dos patrocinadores que trocam um minuto de sua atenção por balas, picolés, sorvetes, chaveiros e adesivos.

Nesta área estão as promotoras que, em circunstâncias normais, seriam o que atraem o maior número de participantes. Aqui, porém, estão mais como obstáculo entre os geeks e os equipamentos eletrônicos e jogos.

O fato vira piada interna para as garotas, discutido na área para fumantes. É uma certa mágoa misturada à sensação de que tudo está perdido para os nerds.

A resposta deles também está entre os expositores. É uma camiseta da Locaweb com os dizeres: “nunca zombe de um geek. Um dia, um deles será seu patrão”.

12h
Como em absolutamente todas as atividades, a hora do almoço também é hora de enfrentar filas.

Quem opta pelo pacote alimentação encontra algo muito mais digno do que o café da manhã: buffet livre com bastante variedade, ítens tão saudáveis quanto desprezados como brócolis e gordices como batata frita e carne suína.

Outros quatro mini-estabelecimentos dão conta do restante do pessoal vendendo açaí, pasteis e sorvetes. 

Após o almoço, voltar para o ambiente da Campus Party é uma pequena via crucis: fica na fila, tira o notebook da mochila, compara o numero de seu adesivo com o numero do crachá, olha a mochila, passa um detector de metais.

Isto acontece na saída da arena e na entrada do acampamento, mil vezes, se necessário.

13h-17h
Mais palestras e debates. Aqui começa a invasão dos jornalistas (segundo apurei, somente eu e um repórter do Estadão encaramos a dura jornada de cobrir tudo o que acontece, seja lá em que hora aconteça).

Os demais colegas chegam ávidos pelas palestras do Momento Telefônica, as peculiridades geeks e os três principais PCs do Mooding.

Alguns beiram a inocência e é de chorar quando você vê um participante vendendo pautas que não existem. Exemplo? "Sabe qual a foto mais vista no Twitpic em todo o mundo? A minha".

Se os jornalistas fazem perguntas muitas vezes inocentes, os blogueiros exploram outro espectro: usar o momento de pergunta como plataforma para se destacar.

Antes da pergunta propriamente dita vem um caminhão de informações aleatórias que fazem o entrevistado perguntar "qual a questão mesmo?".

A linha entre os inocentes e os inconvenientes é tênue e facilmente ultrapassada pelos dois tipos.

Os outros passam por ali mais interessados em tudo o que brilha e pisca, para fazer bonito nas matérias para a TV, principalmente

18h
Hora de jogar Guitar Hero, Headbang Hero, Space Invaders, Counter Strike, simular vôos, entre outros.

Quem vem para jogar, dificilmente passeia por palestras, faz networking ou come brócolis. O alimento é Red Bull, isolamento é a regra e caso a comunicação seja absolutamente necessária, acontece online.

Cada jogador tem sua própria mesa e computador. Não tente estabelecer comunicação se eles estiverem envolvidos no jogo, podem ser hostis.

Você não vê este pessoal piscar, mudar de posição ou falar. De tempos em tempos, o grito de guerra "Ôô" surge para estabelecer uma conexão entre o pessoal desta área e de todas as outras.

19h
Hora dos fumantes, hora tão feliz. Como o cigarro é proibido nas dependências do local, pequenos hubs de nicotina-freaks são formados na porta do Centro de Exposições.

O nível de socialização aumenta exponencialmente, uma vez que é impossível pedir fogo via Twitter ou MSN.

Aqui também nasce o que o colega do Estadão Batizou de Campus Party Lado B: grupos de twitteiros, blogueiros e programadores unem-se no propósito de comprar e administrar bebida - que também é proibida no local.

Scripts do Twitter, importância de Mario Bross, overclocking, clientes estúpidos, técnicas de social media, nada fica de fora. Como cada um vem de um local distinto e não há tempo para conhecer a vida de todos, a tecnologia é o porto seguro de todos.

20h-24h
Uma nova forma de geração saúde: a maioria dos participantes dispensa cigarros e álcool, ainda que abuse de fast food (Habib’s deveria ser patrocinador oficial do evento: caixas e caixas são entregues para garantir a madrugada de quem não dorme).

O pessoal não tão ortodoxo em termos de antissocialidade, mas não tão aberto ao contato com estranhos levemente alcoolizados, fez surgir uma terceira atividade na Campus Party: a exibição de séries queridas dos geeks como The Big Bang Theory e IT Crowd.

Nas madugadas, os telões das palestras servem para transmitir episódios que todos já viram assim que virou torrent.

Mas não é apenas de saudosismo que vivem os viciados em séries. Episódios que foram ao ar nos Estados Unidos nesta semana já rodavam nos laptops de muita gente.

Top séries da Campus Party: House, TBBT, Two and a Half Man, Heroes e IT Crowd.

24h-7h
Tudo o que aconteceu anteriormente é repetido. Só que com uma banda larga que realmente funciona.

Durante a tarde, a conexão deixa a desejar em todos os aspectos. Downloads e uploads demoram e em nada podem ser comparados à propaganda de 10GB.

Assim que a noite chega, muitos dormem, outros tantos vão para casa e quem está aqui prefere sacrificar algumas horas de sono para, finalmente, aproveitar uma conexão ultra rápida. Baixar um filme em cinco minutos é um dos motivos.

A cobertura completa do Campus Party, feita pela repórter Márcia Lima a convite do UOL, pode ser conferida pelo link relacionado abaixo.