A bicicleta foi meu segundo meio de transporte. Digo o segundo, já que o primeiro foi o cavalo. Criança, vivia no campo, e bicicleta era meu objeto do desejo, em tempos que essa expressão sequer existia. Torrei a paciência de meus pais, até ganhar uma. Até aprender a andar, não sei o que estava mais quebrado, se minhas pernas ou a bicicleta. Mas gostei. Vejo pessoas, hoje, descobrindo a bicicleta, depois de ter carro. Bom, eu descobri depois do cavalo. Carro, ainda não tive. Como não tiveram meus pais, meus avós ou bisavós. Posso então concluir que toda minha estirpe, de Adão e Eva para cá, é inocente de todos os malefícios provocados por essas carroças semoventes.

Bicicleta, para mim, era lazer, mesmo que me transportasse longe. Só fui ver a importância das ditas, como transporte e mesmo como suporte de boa saúde, anos mais tarde, em Amsterdã. Ver aquela gente toda, dos sete aos setenta, bicicletando, me fascinou. Velhotas rijas – e certamente de posses – pedalando serenamente entre os canais, debaixo da neve, os netos atrás, como patinhos seguindo a mãe, é espetáculo que alegra os olhos. Bom senso está ali. Isso foi há mais de trinta anos e, na época, Amsterdã se orgulhava de ter mais de 400 mil bicicletas. Voltando a Porto Alegre, que nadava nas ondas da euforia do automóvel, cheguei a propor ciclovias. Fui tido como insano, nada menos.

Em crônica passada, falei de uma manhã de domingo que passei em Umeå, norte da Suécia. Centenas de cidadãos, de alto poder aquisitivo, para quem não custaria grande coisa voar dali para as Canárias ou ilhas gregas, estacionando suas bicicletas junto aos bares do centro da cidade. Suecos que teriam seus Volvos, Mercedes, BMWs. Que permaneciam em suas garagens, discretos, enquanto seus proprietários curtiam de bicicleta a pachorrenta manhã de domingo. Hoje, todas as capitais da Europa reservam amplo espaço aos ciclistas. Exceto Lisboa, bem entendido, cujas colinas em nada estimulam o pedalar.

Sem jamais ter ido là, algo me fascinava na China, a opção pela bicicleta. Sempre imaginei Pequim, por exemplo, como um silencioso paraíso para os transeuntes, independentemente das agruras do socialismo. Claro que nunca me ocorreu ir a Pequim apenas para ver ciclistas, mas era algo simpático que a cidade oferecia à minha imaginação. No entanto, como sói acontecer em Terceiro Mundo, seus cidadãos adoram imitar o que de pior existe no Primeiro.

A bicicleta começa a ceder lugar ao carro em cidades chinesas – é o que me dizem as manchetes. Depois de quase meio século de crescimento, o total de ciclistas nas ruas está caindo, escreve Philip Pan, do The Washington Post. Segundo o correspondente, o número de bicicletas na China - 540 milhões - é quase o dobro do total de habitantes dos EUA. Mas pedalar é agora mais incômodo que nunca. Os carros são senhores das vias, expelindo fumaça na cara dos ciclistas, empurrando-os para faixas de trânsito lotadas e abalroando-os com freqüência. A reforma habitacional fez com que os moradores se mudassem para longe dos empregos, tornando as idas e vindas de bicicleta cada vez menos práticas. Moças modernas, que preferem saias a calças compridas, estão desistindo das bicicletas e tomando ônibus e metrô, cujas linhas se expandem rapidamente.

É uma pena. De Pequim a Xangai, as bicicletas estão diminuindo. Preparem-se os chineses para as seqüelas: obesidade, cardiopatias, hipertensão, diabetes, problemas respiratórios. Isso sem falar nos engarrafamentos e acidentes. Um dos raros encantos que a China socialista oferecia, o transporte sobre duas rodas, está desaparecendo, em nome de Sua Excelência, o Automóvel. A venda dos ditos está crescendo em mais de 50% ao ano e já causa mais de 140 mil mortes por ano. Xangai, a maior cidade da China, baniu bicicletas de suas maiores avenidas em fevereiro deste ano. Responsáveis pelo transporte de mais de 70% dos passageiros em 1990, as bicicletas agora levam de 15 a 17%, segundo a Secretaria de Planejamento Urbano de Xangai.

Leio ainda que o alto índice de mortalidade provocada por automóveis disparou, chegando a seiscentos por dia, o dobro do declarado pelas autoridades. A diferença se verifica porque "os números chineses levam em conta as mortes que ocorrem no local do acidente. Se a pessoa se fere, é levada ao hospital e morre ali, muitas vezes não é incluída". O número de mortes sobe em média 10% ao ano. Durante muito tempo o carro foi uma prerrogativa de classe, e hoje, segundo os jornais, muitos condutores se desforram e se sentem superiores ao volante, negando passagem a qualquer pedestre e veículo que seja menor que o seu. O Brasil que se cuide. Dentro em breve perderemos o primeiro lugar neste sinistro campeonato, o de mortes no trânsito

Semana passada, esta provinciana São Paulo, que adora ouvir o galo cantar mas nem sempre sabe onde, promoveu o Dia Mundial sem Carro, movimento pioneiro de Estocolmo... nos anos 70. O evento parece ter superado as expectativas. Às 10h30 da manhã, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrava 62 quilômetros de congestionamento, dez quilômetros acima da média para o horário. Para não dizer que não houve celebração alguma, cerca de 30 ciclistas pedalaram desde o início da manhã por algumas das principais vias da cidade. Brasília não poderia ficar atrás. O ministro das Cidades, Olívio Dutra, usou um carro para depois pedalar por dois quilômetros e meio... em declive, que ministro não é de ferro. Para acompanhá-lo nesta participação no Dia Mundial sem Carro, sua segurança usou nada menos que nove carros.

Volto ao Oriente. Não bastasse ter importado esta peste letal do Ocidente, a China aderiu a praga não menos nociva, a psicanálise. Enquanto nós, ocidentais deslumbrados com o longínquo, nos deixamos enganar pelos lian gongs, tai chi chuans, tui nas, qi gongs e feng shuis da vida, o assim chamado Império do Meio está se rendendo às charlatanices de Freud. É o que nos conta o Los Angeles Times. “Outrora difamada pelos comunistas como um remanescente do imperialismo burguês, a prática da psicologia – em especial, o ritual ocidental de ir ao terapeuta – está ganhando popularidade neste país de capitalistas debutantes”. Para vender seus placebos, os gigolôs das angústias humanas precisam primeiro criar a doença. Munem-se com o acesso à Internet e imagens de terapia como as do blockbuster Infernal Affairs, de Hong Kong. A venda de Prozac quase dobrou em quatro anos, o suicídio é hoje a principal causa de morte entre jovens adultos e os casos de divórcio estão aumentando.

Decididamente, o bicho-homem não tem cura. Para cada vigarista que abre a boca, legiões de otários se atropelam para segui-lo.Longa vida ao Ocidente e suas mazelas.