O papa João Paulo II afirmou recentemente, em Memória e Identidade, livro que acaba de lançar, que o comunismo pode ter sido "um mal necessáaio" do século 20. A obra é baseada em conversas particulares que o papa teve com dois filósofos poloneses no verão de 1993, quatro anos após a queda do comunismo na Europa oriental. Sua Santidade é um homem de extraordinária coragem intelectual. Lembra-nos Pangloss, o personagem de Voltaire, para quem tudo vai bem no melhor dos mundos.

Segundo Le Livre Noir du Communisme, de Stéphane Courtois et allia, no século passado o comunismo produziu nada menos que cem milhões de cadáveres. Isso em período não de cem anos, mas de sete décadas. As 846 páginas do livro tornam o relato cansativo. Basta, a meu ver, o resumo: URSS - 20 milhões de mortos; China - 65 milhões; Vietnã - 1 milhão; Coréia do Norte - 2 milhões; Cambodja - 2 milhões; Europa do Leste - 1 milhão; América Latina - 150 mil; África - 1,7 milhão Afeganistão - 1,5 milhão; movimento comunista internacional e PCs fora do poder - uma dezena de milhar de mortos.

Enfim, para um vice-deus, cem milhões de mortes não deve ser algo alarmante em um planeta que conta com seis bilhões de habitantes. No Gênesis, o desastre foi proporcionalmente maior. Morreu todo ser vivente, menos Noé, os seus e os animais de sua arca. Não foi nem genocídio. Foi pancídio, se é que a palavra existe. (Se não existe, eu a crio). Sem falar na hecatombe ecológica. Embora a Bíblia seja omissa sobre o assunto, é de supor-se que os peixes e demais seres marinhos tenham escapado da ira de Jeová. Para quem aceita sem restrições a fúria divina manifesta no dilúvio, cem milhões é café pequeno. É o que diria Pangloss.

Quando a Polônia e outros países do Leste Europeu caíram sob o domínio soviético, após a Segunda Guerra Mundial, considerou Sua Santidade: "Ficou claro para mim, de repente, que o comunismo duraria muito mais tempo do que durara o nazismo. Quanto tempo? Era difícil prever. O que éramos levados a crer era que esse mal era, em algum sentido, necessário para o mundo e para a humanidade. De fato, pode acontecer que, sob determinadas situações concretas da existência humana, o mal revele ser de alguma maneira útil – útil na medida em que cria oportunidades para o bem."

Há males que vêm para o bem, é o que quer nos dizer Sua Santidade. O mesmo não diriam poloneses, tcheco-eslovacos, húngaros e alemães orientais. Mas, se Paris vale uma missa, como disse Henrique de Navarra ao converter-se ao catolicismo, o triunfo da idéias democráticas vale bem toneladas de defuntos. Neste sentido, podemos concluir que o nazismo foi um mal providencial. Não fosse Hitler, não seria criado o Estado de Israel e os coitados dos hebreus viveriam em eterna diáspora, cumprindo a sina de Ahasverus, “o mísero Judeu, que tinha escrito na fronte o selo atroz”, como escreve Castro Alves.

Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
E no mundo tão grande... o forasteiro
Não teve onde... pousar.
Co'a mão vazia — viu a terra cheia.
O deserto negou-lhe — o grão de areia,
A gota d'água — rejeitou-lhe o mar.

Adolph Schicklgruber, ainda que por vias transversas, encontrou um território para Ahasverus. Teorias peregrinas chegam afirmar que os judeus já encontraram seu messias, o Schicklgruber. Há males que vêm para o bem, como diria Sua Santidade. Para construir Israel, nem foi preciso matar cem milhões. Seis milhões foram bastantes. Mesmo sem ter vivido na pele a diáspora, o vice-deus reconhece os efeitos benéficos do nazismo. Recordou a era em que a Polônia esteve sob ocupação nazista e quando ele estudou em segredo para tornar-se sacerdote. "O Senhor Deus permitiu que o nazismo existisse por doze anos, e após doze anos esse sistema caiu. Percebe-se que esse foi o limite imposto pela divina Providência àquele tipo de loucura". Embora não muito eqüitativa, a justiça divina é distributiva: aos poloneses concedeu apenas doze anos sob o nazismo, para quatro décadas sob o comunismo. A Polônia, penhorada, agradece tanto senso de misericórdia.

A Inquisição, então, foi mal necessaríssimo. Construiu a Res Publica Christiana, hoje chamada Europa, e consolidou o poder vaticano, emblema contemporâneo dos maiores faustos do mundo. Certo dia, em Toledo, quis visitar o Museu da Inquisição, na época lá instalado. Perguntei a uma toledana onde ficava, ela de bate-pronto me retrucou: por que o senhor não vai visitar nossa catedral? Ela é belíssima. A catedral eu já havia visitado, sua arquitetura majestosa sempre me faz chorar. Mas o que eu queria ver, daquela vez, eram os instrumentos que haviam possibilitado a ereção da catedral. A vontade é de vomitar. Difícil conceber o talento do humano engenho quando se trata de fazer o próximo sofrer. Mas, enfim, há males que vêm para o bem. Turista algum se comoveria hoje até as lágrimas, visitando aquele templo imponente, não fossem as torturas horrendas pelas quais passaram os homens da época que o erigiram.

Mas mal dos bons, mal divino mesmo , foi a ditadura de 64. Pelo menos para suas supostas vítimas. Em país algum do mundo os derrotados da História foram tão bem agraciados.A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça divulgou ontem mais uma lista de pessoas com direito a receber indenizações pelo período em que foram perseguidos pela ditadura militar. Para esse grupo de 76 pessoas que tiveram os resultados dos processos divulgados no Diário Oficial, a União vai pagar R$ 47,7 milhões.

O imortal Carlos Heitor Cony, por exemplo, em processo em processo anterior, passou a ganhar a bagatela de 19 mil reais mensais pelos desserviços prestados ao país. É quantia para estimular a auto-estima não só de imortais, mas de qualquer mísero mortal. Os pedidos de indenização dos militantes, por terem sido impedidos de levar o país à tirania e à miséria, já são 43 mil. Estima-se que essas indenizações possam chegar a quatro bilhões de reais. Mais ainda: os contemplados pela generosidade estatal estão isentos do imposto de renda e contribuições à Previdência. Tais ônus são encargo de quem trabalha e sustenta estes marajás.

Entre os novos agraciados está o jornalista Hélio Fernandes, diretor do jornal Tribuna da Imprensa, que vai receber R$ 1,4 milhão como indenização, além de uma pensão de R$ 14,7 mil mensais como reparação econômica pelo período em que foi impedido de exercer a profissão. Isso sem falar no presidente da República, que se aposentou aos 42. Lula, que obteve a graça divina de passar trinta anos sem trabalhar, teve aposentadoria especial para anistiado político – sem nunca ter sido anistiado, afinal nunca foi condenado. Concedida em 1996 e requerida um ano antes, o benefício, que hoje totaliza R$ 3.862,57, está devidamente isento do pagamento de imposto de renda. Há males que vêm muito, mas muito mesmo, para o bem. Mais do que Sua Santidade imagina. 1964 foi uma benção para os comunistas e compagnons de route tupiniquins.

Mas há bençãos e bençãos. Uma delas foi decorrente da vitória do PT nas últimas eleições presidenciais. Não fosse esta vitória, que hoje a todos enoja, o PT não teria ontem sido derrotado em capitais-chave como São Paulo e Porto Alegre. Deus não joga, mas em seus momentos de ócio fiscaliza.