O professor Newton Braga Rosa concedeu uma entrevista exclusiva para o Baguete minutos depois do encerramento da eleição para prefeito e vereadores de Porto Alegre. É um registro histórico do que pensava o candidato minutos depois de encerrada a campanha.

Quem teve, aliás, a oportunidade de conversar com o Newton Braga no domingo, 03, encontrou um homem em ebulição. Mas principalmente feliz! Realizado! Essa foi a análise do editor do Baguete, Gilnei Marques, depois da entrevista a seguir:

Baguete - E, então, acredita que foi eleito?

Newton Braga Rosa - Agora, às 17h10, saindo direto da boca de urna, vim na sede do Baguete para conceder a primeira entrevista antes de qualquer resultado. Por que? Independemente de qualquer resultado, foi uma coisa tão importante que vai nos fazer esquecer algumas coisas que precisam ser registradas.

Baguete - O que precisa ser registrado?

Newton - Primeiro, que me esforcei ao máximo. Estava bem consciente da responsabilidade que o setor depositava nessa candidatura. Não sei se isso foi o suficiente, mas eu acho que já existem importantes dividendos, independentemente do resultado final.

Baguete - Que dividendos são esses professor?

Newton - Essa candidatura vai ser lembrada como sendo um dos eventos que reuniu toda a comunidade do setor numa mesma direção. O apoio foi uníssono. Em segundo lugar, acredito que o setor conquistou um espaço político pelo fato de ser a primeira tentativa. Eleito ou não isso tem um valor significativo. A capacidade de mobilização política do setor vai ser considerada pela classe política de agora em diante. Espero que seja o início de uma trajetória de maior participação nos processos decisórios, como já ocorre com outros segmentos mais tradicionais da economia.

Baguete - O senhor teve que se afastar de algumas de suas atividades. Mesmo assim contou com o apoio desse público?

Newton - Na UFRGS, por força da lei eleitoral, fui obrigado a me afastar das aulas . E também não pude participar do programa de TV Câmera 2, onde há oito anos participo com comentários sobre o setor. Mas, sem dúvida, tive apoio de alunos professores, de outras faculdades também, algumas que nem em Porto Alegre ficam, mas onde trabalham como professores vários ex-alunos. Os alunos, por sinal, tiveram uma participação decisiva na arrancada da campanha, abrindo duas comunidades no Orkut (Eu voto no Prof. Newton - 11222) e, em menos de uma semana, ex-alunos, alguns inclusive em outros países, já sabiam da candidatura.

Baguete - Pessoalmente, como foi a sua experiência?

Newton - Fiquei gratificado em constatar que com a ajuda do setor se conseguiu arrancar uma candidatura do zero, sem passado político, sem máquina partidária e sem equipe. E o que é melhor: jogá-la além das fronteiras da nossa comunidade. Por outro lado, foi extremamente cansativo tanto do ponto de vista físico quanto psicológico. Na última quinta-feira de tarde, percebi que havia ultrapassado certos limites do razoável. E fui obrigado a controlar o ritmo.

Baguete - Como foi feita a divulgação da candidatura? O que o senhor dividiria com um futuro candidato do setor?

Newton - A boa notícia: havia um público alvo bem definido. A má notícia: tudo o que as pessoas sabiam a respeito de campanhas tradicionais no passado não se aplicava ao nosso público-alvo. Portanto, foi necessário primeiro construir uma estratégia que não passasse por bandeirola pendurada em postes, faixas, banners, folders, santinho e outras formas de poluição que acabam entupindo bueiros, que acabam indo para o fundo dos rios e de lá liberando substâncias poluentes por décadas. No fundo do Guaíba repousa o lixo da campanha de 2000, 2002, 2004 e, se não fizermos nada, de várias futuras.

Baguete - A Internet foi, portanto, fundamental.

Newton - A estratégia foi montada em contatos via web, com base no Orkut em sua fase áurea, e-mails personalizados para pessoas diretamente relacionadas a mim ou diretamente relacionadas a estas, cartão de visitas (houve oito versões experimentais antes da definitiva) e outdoors. Sobre este ultimo vale dizer que foi feito visando comunicar a candidatura ao público do Câmera 2. Não tive grandes retornos desse intento. Em compensação, o outdoor foi maravilhoso dentro do setor de tecnologia. Ele legitimou a candidatura e me colocou em pé de igualdade com candidatos tradicionais nas ruas. Também houve a boa surpresa do presente de um amigo para adesivar um Jeep, imediatamente clonado face aos resultados.

Baguete - Pela sua inexperiência em campanhas políticas, imagino que muitas dúvidas sobre como proceder a campanha devem ter surgido. Quais as principais?

Newton - Vou contar as últimas. Há duas semanas da eleição, surgiu a seguinte dúvida: colocar mais dez outdoors ou dez anúncios em jornais? Optei pelo jornal sem muita convicção. A realidade mostrou como foi importante, na última semana, e até o domingo da eleição, publicar um santinho nos três principais jornais de Porto Alegre. Descobri que o santinho em jornal permite que as pessoas recortem e memorizem o número que elas já haviam visto mas não haviam fixado ao passar na frente de um outdoor na rua.

Importante registrar também que, toda vez em que não soube como proceder, eu buscava um referencial do mundo empresarial. Em vez de santinho para pedir votos, usei cartão de visitas para comunicar o novo projeto. Durante três meses, sem interrupção, usei o crachá da saudosa Terceira Terça, de dois andares, que facilitava a primeira abordagem de pessoas desconhecidas.

Baguete - Mas afinal, o senhor está eleito ou não?

Newton - Não tenho a mínima idéia. Mas é uma pergunta muito freqüente que tenho respondido da seguinte maneira: Não sei, afinal sou novato. O que eu sei é que fiz mais de dois mil contatos pessoais diretos, participei de dois a cinco eventos por dia, durante esses três meses, tive exatos 1001 perfil views no Orkut e uma quantidade que ainda não olhei de visitas ao site.