Tento fugir ao tema, mas o homenzinho não me deixa. Em um de seus últimos discursos, dirigido a agentes de turismo, apelando a mais uma de suas metáforas baratas, disse: "Se o cidadão toma um cascudo da mulher à noite porque chegou tarde, ele não vai dizer: a minha mulher me deu um cascudo. Ele vai dizer: a minha mulher ficou brava, nervosa, mas a cabeça está doendo. Vocês não ficam contando as brigas de vocês dentro de casa? É porque a gente quer preservar nossa família e nossa imagem".

Com isto queria dizer que devemos ocultar nossas mazelas aos olhos dos estrangeiros, para não afastar os turistas. Isso de alemães apunhalados à luz do dia, suecos assaltados em plena praia, são assuntos internos nossos. Nem Alemanha, nem Suécia, nem Europa alguma precisa saber disso. Faltou síntese ao Supremo Apedeuta, como também conhecimento da cultura popular. O povão é mais sintético. O presidente poderia ter poupado saliva e dito simplesmente: “sujeira a gente varre pra baixo do tapete”.

E assim o Planalto fica com um aspecto limpo. Estamos voltando, a passos rápidos, rumo a 64, quando os militares não suportavam notícias de arbítrio e tortura na imprensa internacional. Mais um pouco e Lula estará denunciando os “negativistas profissionais”, como os militares chamavam na época os jornalistas que insistiam em mostrar a sujeira debaixo do tapete.

Nossa imprensa denuncia, quase que diariamente, a corrupção que exaure o país e a impunidade quase absoluta dos corruptos. Paulo Maluf, por exemplo, vem sendo denunciado há décadas por corrupção e sempre se apresenta, com o mais cândido dos sorrisos, como inocente e caluniado. Semana passada, foi necessário um caminhão para transportar 130 mil documentos que atestam suas falcatruas. Maluf, sempre impávido: nada tenho a declarar, não tenho contas no Exterior. Ora, se eu, que apenas tenho onde cair morto, já tive contas em três países, como imaginar que um bilionário como Maluf só tenha contas em moeda vil neste instável país de Terceiro Mundo? Só da Suíça, existem três mil documentos na carroçaria do caminhão, incriminando Maluf. Que interesses teriam as autoridades suíças em encarniçar-se sobre a figura de um político brasileiro, não existissem grossas irregularidades em suas contas, contas que aliás Maluf nega. Enfim, se Maluf serve para esbulhar o país, serve também para enriquecer o vernáculo. Malufar já virou verbo e, em São Paulo, já não se fala em cara-de-pau, mas em cara-de-paulo.

Mas não era do cara-de-paulo que pretendia falar. Há alguns anos, andou pelo Brasil uma autoridade americana, cujo nome ora me escapa, e disse que a corrupção no país era “endêmica”. Escândalo nacional, uivos de patriotismo ofendido. Como ousava o ianque caluniar este país esplêndido? Até mesmo os jornais que diariamente faziam denúncias da corrupção, aderiram à indignação desta nação impoluta.

Sabemos, há décadas, que o Rio de Janeiro virou um bantustão, onde o Estado não tem autoridade e o tráfico dita as leis. Decreta luto, homenagens aos traficantes, cultua criminosos como heróis, fecha comércio, escolas e ruas quando bem entende, e a polícia assiste a tudo isso de braços cruzados e com medo. Bastou que um jornal britânico qualificasse a cidade como a capital da cocaína, para que um surto de indignação grassasse como uma pandemia de norte a sul do país.

Que quer Lula? Que a imprensa venda o país como um paraíso tropical, circundado de praias com cocotiers, sobre os quais repousam, em divinos decúbitos, mulatas exibindo o que de mais exuberante têm a exibir? Esta foi durante muito tempo a política do Itamaraty. Nos anos 70, você não entrava em consulado ou embaixada alguma na Europa sem esfregar o nariz no traseiro generoso de uma mulata, estampado em um pôster em tamanho natural. Depois surgiu a moda de condenar como pecado mortal o turismo sexual, como se os turistas viessem apenas ao Brasil para degustar churrasco ou frutos do mar. Com a Dra. Masturbação Sociológica no Planalto, como o ministro Serjão – não este que vos escreve – definiu a ex-primeira-dama Ruth Cardoso, é possível que os glúteos tenham desaparecido das representações diplomáticas brasileiras. A verdade é que, fora mulatas e praias, o país pouco ou nada tem de palatável para exibir urbi et orbi.

Tem as favelas, é verdade, que os europeus – particularmente os franceses – adoram visitar. Durante este breve turismo rumo ao exótico, os traficantes, que costumam receber à bala autoridades ou algum descuidado que erre de rua na noite, estendem tapetes vermelhos aos ilustres visitantes, com pochetes repletas de divisas fortes. Há também os índios, tão lindinhos, tão rousseaunianos, quando vistos de longe ou por excursões de turistas. São especialmente apreciados por americanos e europeus, que respiram aliviados ao passar pelas aldeias: “graças, ó Senhor das Nações Cultas, por terdes nos livrado há milênios desta condição infame”. Há comparações que gratificam imensamente o espírito de um homem civilizado.

O presidente está preocupado com imagens, não com a realidade. A realidade é, no mínimo, disgusting. Se no Rio não há mais governo, se a corrupção grassa nos Estados e no próprio Congresso, se as ruas estão repletas de pobres diabos dormindo ao relento, ocultem-se esses inocentes cascudos. Voltemos às ladainhas do Conde Afonso Celso: “Não há no mundo país mais belo do que o Brasil. Quantos o visitam atestam e proclamam essa incomparável beleza”. Ou de Gonçalves Dias:

“Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.”

Porque não escrevem nossos jornalistas sobre estrelas, flores, vida e amores? Lula adoraria rever nas bancas, certamente, aquelas antigas revistas de sua época de jovem, como China e Unión Soviética, que mostravam camponesas saudáveis e sorridentes trabalhando com enxadas em loiros trigais, jovens enternecedoras estudando nos bancos de universidades exemplares, cientistas felizes pesquisando em sofisticados laboratórios. Jornalismo bom era aquele. Nada de Sibéria, gulags, farsas jurídicas, fuzilamentos sumários, fome ou miséria. Soviético algum diria em público: “a minha mulher me deu um cascudo”. E ai do pobre coitado que o dissesse.

Tiroteios nos grandes centros, balas perdidas matando transeuntes nas metrópoles, a cocaína sendo distribuída em qualquer esquina, o analfabetismo assumindo postos nas universidades, o governo caloteando precatórios alimentares, milhares de idosos morrendo na penúria sem ver a cor do dinheiro que o governo lhes deve, isto são detalhes que não devem empanar a imagem deste país, onde a eleição de Lula representou “um grande passo para a humanidade”, em suas próprias palavras. Em vez de pagar as centenas de milhares de precatórios – já transitados em julgado – que deve, o Supremo Apedeuta prefere comprar um avião de extremo luxo, para exibir ao mundo a pujança desta grande nação.

Nestes dias de photoshop, por que não trabalhar um pouco melhor o real? Restará ao leitor alguma dúvida sobre os objetivos do projeto de Conselhos Federais de Jornalismo, proposto pelo governo?