Cassio Dreyfuss: CIOs temem sair da zona de conforto

O Brasil é um dos países mais lentos ne adoção da cloud computing entre grandes empresas, aponta prévia de estudo do Gartner. E o motivo pode ser o medo dos CIOs.

Os dados indicam que 80% dos diretores de TI brasileiros não têm a intenção de aderir à computação em nuvem nos próximos três anos, e apenas 10% têm um contrato de serviço assinado e valendo atualmente.

Foram ouvidos 54 CIOs e diretores de TI no Brasil, segundo Allie Young, analista emérita do Gartner que apresentou uma prévia do estudo.

Apesar de não divulgar os dados completos, a amostra já basta para contrariar o vice-presidente de pesquisa da Gartner para a América Latina, Cassio Dreyfuss.

“Em 2009, os CIOs brasileiros eram os primeiros em apontar a vontade de entrar na nuvem. Em 2010, 80% dos executivos da área no Brasil sequer cogitam a adoção. Saímos do primeiro para o último”, protesta Deryfuss.

Hoje, a cloud computing é a quarta prioridade na lista dos brasileiros.

De acordo com o diretor, é incomum que os brasileiros, acostumados a ser vistos como entusiastas de novidades, estejam tão atrasados na adoção da tecnologia.

Fora da zona de conforto
Os motivos seriam a demora da oferta de serviços por parte dos provedores, em relação a produtos vendidos fora do Brasil, a insipiência dos modelos de negócio e um nível ainda inadequado da gestão de riscos.

Mas isso não é tudo. “O que se percebe também é um medo do CIO de sair da sua zona de conforto”, explica Dreyfuss.

Na visão do diretor, o CIO tradicionalmente habituado a combinar recursos de hardware e software está com os dias contados em função da emergência da oferta de serviços.

“A verdade é que o CIO maquineiro vai acabar, e isso incomoda alguns profissionais”, diz Dreyfuss.

A mudança no perfil seria uma das razões para a resistência. Na visão de Dreyfuss, um esforço inútil. “Se o CIO não puxar a mudança na sua empresa, ele vai acabar sendo puxado, talvez até empurrado, pra fora da companhia”, reitera.

Adaptar ou morrer
Na prática, fatores como a consumerização dos serviços de TI acabam gerando a adoção de novas tecnologias, num ambiente em que que, como diz a Diretora de Agenda do Gartner Frances Karamouzis, “os usuários da empresa até pedem perdão (por usar uma nova tecnologia), mas raramente pedem permissão”.

O jeito, para Dreyfuss, é se adaptar.

Segundo o VP Gartner, os CIOs já têm que se especializar em serviço e gerência de fornecedores, deixando os conhecimentos de infraestrutura num plano menos importante, e assumindo ares de executivo, não mais de “o cara da TI”.

É um papel mais estratégico, à medida que a infra de TI fica nas mãos dos fornecedores, avalia Dreyfuss. “Continua sendo fundamental na empresa (conhecer a TI), mas ele deve atender a esse novo perfil, sempre atento ao mercado”.

CIO people person
Além de negócios e serviços, ressalta o Gartner, o CIO tem que entender também de pessoas, motivando os colaboradores, comunicando-se de forma eficaz, liderando e tendo criatividade.

“Isso significa tirar os olhos dos indicadores da rede e perceber como estão os funcionários e colegas de trabalho”, complementa, ressaltando a necessidade de ser um people person, num dos grifos de sua apresentação.

E agora, o que eu faço?
Apesar da mudança no perfil, Dreyfuss tranquiliza os CIOs à moda antiga.

“Ainda há lugar para os maquineiros, basta eles procurarem”. Um bom mercado, sugere, é nos fornecedores de serviço, mais focados na infraestrutura e na solução de problemas do gênero.

“Quem não sabe onde se encaixa tem que levar em conta três fatores básicos: o que gosta de fazer, no que é bom e onde está o dinheiro, claro”, aconselha Dreyfuss, citando Jim Collins, consultor de negócios e autor de Good to Great (2001).

* Guilherme Neves cobre a VIII Conferência Anual Outsourcing do Gartner a convite do Grupo Meta, patrocinador do evento.